Bossa Nova

Definição, origem e desenvolvimento do movimento de música brasileira bossa-nova, bem como apresentação das suas inovações musicais e vocais.

Conceito

A bossa nova é um movimento de música brasileira derivado do samba, com influências jazzísticas. O género,  que surgiu nos anos 50 com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais, é, hoje, reconhecido em todo o mundo.

Origem

A palavra bossa apareceu, pela primeira vez, na década de 1930, no samba de Noel Rosa «São coisas nossas»: “O samba, a prontidão / e outras bossas, / são coisas nossas”. Na década seguinte, a expressão passou a ser utilizada para designar os sambas de breque, caracterizadas pelas pausas para fins declamatórios.

Na década de 50, começaram a acontecer encontros informais entre músicos da classe média carioca, em Copacabana, nos quais se fazia música. Os participantes eram novos compositores como Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sérgio Ricardo, entre outros. O grupo foi aumentando com a entrada de de músicos como Chico Feitosa, João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas e Ronado Bôscoli.

Os primeiros concertos foram realizados no âmbito universitário. No final de 1957, neste contexto, no Colégio Israelita-Brasileiro, os músicos Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Sylvia Telles, Roberto Menescal e Luiz Eça, foram anunciados como “grupo bossa nova apresentando sambas modernos”. A razão terá sido tão somente um recado deixado escrito num quadro a chamar pessoas para a apresentação de samba sessions, como eram então conhecidos estes concertos, por uma “turma bossa-nova”.

Para os críticos, o início oficial do movimento aconteceu em Agosto de 1958, com o lançamento de um CD de João Gilberto que continha as canções «Chega de Saudade» (Tom Jobim e Vinicius de Morais) e Bim Bom, do próprio. Em 1959, foi lançado o primeiro LP de Gilberto, «Chega de Saudade».

A bossa nova tornou-se, assim, uma realidade. Além de João Gilberto, o repertório clássico do movimento deve-se às parcerias de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Os dois compuseram «Garota de Ipanema», uma representante do género, que se tornou na canção brasileira mais conhecida em tudo o mundo, com mais de 169 gravações. Entre os nomes que a reproduziram encontram-se Sarah Vaughan, Stan Getz, Frank Sinatra e Ella Fitzgerald.

Inovações musicais

A bossa nova procurou integrar a melodia, a harmonia, o ritmo e o contraponto nas canções, de modo a não se verificar a prevalência de um dos parâmetros sobre os outros. Este facto revolucionou o paradigma anterior da música brasileira que ditava a hegemonia da melodia. A harmonia, até então, devia ser simples e consonante de modo a não sobressair nem dificultar a compreensão da melodia.

Os acordes (principalmente em peças para piano e/ou violão) passaram a desempenhar uma dupla função: harmónica e percussiva, sublinhando as batidas rítmicas. Na música popular brasileira tradicional, encontravam-se estas duas funções mas nunca em simultâneo. “A rigor, a questão rítmica permeia toda a estética da Bossa Nova: a própria melodia pode ser estruturada segundo configurações derivadas das células rítmicas que caracterizam a “batida da Bossa Nova”” (Goulart, 2000).

Ainda assim, o movimento manteve o respeito pela tradição da música popular brasileira, com frequentes releituras de obras de compositores como Noel Rosa, Assis Valente, Ari Barroso, entre outros. A influência do jazz, especialmente o bebop, era evidente, mas o que acontecia era uma adaptação dos recursos ao género. Desta forma, criou-se um diálogo entre os dois géneros, com ambos a influenciarem-se reciprocamente.

Inovações vocais

A interpretação vocal sofreu uma profunda alteração. A bossa nova despojou a voz de vibratos, de efeitos dramáticos, de demonstrações de virtuosismo. O canto aproximava-se, sim, do modo de falar normal e quotidiano, originando uma atmosfera intimista e minimalista. Em resposta às críticas dos ouvintes habituados ao estilo tradicional, que acusavam os novos cantores de ‘não terem voz’, Newton Mendonça terá dito o seguinte enquanto interpretava «Desafinado»: “Se você insiste em classificar / Meu comportamento de anti-musical / Eu, mesmo mentido, devo argumentar / Isto é Bossa Nova, isto é muito natural”.

Com este género, o cantor abandonou a sua posição de destaque relativamente aos instrumentistas (até porque eram frequentemente cantores e instrumentistas), colaborando com o resto da banda para o mesmo resultado final. “Assim, reconhece-se na interpretação uma parte da própria composição musical. O intérprete da Bossa Nova será portanto, na realidade, um co-participante da realização. Isso é análogo ao que acontece com o jazz, onde a improvisação é uma exigência. Cantar Bossa Nova exatamente como está escrito na partitura é considerado erro de interpretação, erro de estilo.” (Goulart, 2000).

Outra característica do movimento prendia-se com as letras que, contrastando com os sucessos de até até então, abordavam temáticas leves, sem compromissos, como as mulheres, amor, a natureza, as saudades, etc. As canções de bossa-nova são, de forma geral, desprovidas de carácter político.

Fim da bossa nova e legado

Em meados da década de 60, surgiu uma cisão no movimento quando alguns músicos como Dori Caymmi e Edu Lobo, embebidos num espírito nacionalista, começaram a criticar a influência do jazz norte-americano na bossa-nova e iniciaram uma aproximação aos compositores do morro.

Foi Vinícius de Moraes, um dos maiores expoentes da bossa, a compor um dos marcos do fim do movimento, juntamente com Edu Lobo. A canção «Arrastão», defendida por Elis Regina no primeiro Festival de Música Popular Brasileira, assinalou o fim da bossa nova e o início de um novo género, música popular brasileira. Este abarcou diversas tendências da música do país até ao início da década de 80.

Apesar do seu término, o movimento foi uma grande referência para gerações posteriores de artistas de jazz e mesmo para uma corrente pós-punk britânica à qual pertenciam Style Council, Matt Bianco e Everything but the girl. Muitas canções bossa-novistas, entre as quais «Chega de Saudade», «Garota de Ipanema», «Desafinado», «O barquinho», «Eu sei que vou te amar», «Se fossem todos iguais a vocês», «Águas de março», «Outra vez», «Coisa mais linda», «Corcovado», «Insensatez», «Samba de uma nota só», «Saudade fez um samba», são marcos na história da música brasileira.

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References:

Bossa-Nova. Em https://pt.wikipedia.org/wiki/Bossa_nova#In.C3.ADcio_oficial

Goulart, D. (2000). Bossa Nova: uma batida diferente. Em http://www.dianagoulart.com/Canto_Popular/Bossa.html

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