Instinto

No discurso actual, o conceito de instinto apresenta diversos significados.

 

 

No discurso actual, o conceito de instinto apresenta diversos significados. Por exemplo, pode referir-se a um impulso para uma acção intencional, ainda que desprovida do conhecimento do seu fim; a uma propensão, aptidão ou intuição com as quais um indivíduo nasce; a motivos, compulsões ou energias condutoras que instigam atitudes que servem funções vitais. Esta polissemia raramente desencadeia problemas nos diálogos quotidianos. No entanto, a tendência de se assumir que a evidência de um significado implica os restantes, tem provocado confusões em contextos científicos.

Darwin

A maior parte dos usos científicos hodiernos do conceito de instinto derivam de Charles Darwin, que esquivou-se à definição à luz do facto de que inúmeras acções mentais distintas se englobam no termo. Portanto usou a palavra para referir impulsos como a migração dos pássaros, disposições como a tenacidade no cão, sentimentos como a simpatia no ser humano, entre outros sentidos. Contudo, o seu argumento frequentemente pressupunha o instinto como algo que combinava os seus diversos significados num único conceito sólido, aprovando a inferência de um significado para outro. Por exemplo, quando havia razões para pensar que algum padrão comportamental era geneticamente herdado, Darwin assumia que o seu desenvolvimento era independente da experiência; inversamente, permitiu-se compreender a aprendizagem à razão de excluir o papel do instinto nesse fenómeno, como se o instintivo fosse hereditário e nunca aprendido. Mas a relação entre transmissão hereditária e desenvolvimento ontogénico admite toda a espécie de combinações entre impulsos inatos e dados adquiridos.

Na Origem das Espécies Darwin concentrou-se no instinto como subjacente ao sentimento, desejo e vontade. Construído como um impulso para a tomada de acção, o instinto manifesta-se em si como um comportamento orientado por um objectivo: porém, se neste sentido a única evidência para o instinto é a acção orientada por um objectivo que a deve justificar, a justificação não ilustrará nenhuma informação. A não ser que existam correlatos independentes identificáveis, como variáveis fisiológicas, o inventário dos instintos dos animais corresponderá ao inventário dos objectivos que orientam o comportamento dos animais.

Para Darwin estas dificuldades não afectaram grandemente o seu argumento sustentado na continuidade psicológica entre a besta e o humano.

Freud

Sigmund Freud projectou várias teorias sobre o instinto: inicialmente compreendeu a psique como sujeita aos impulsos (biologicamente baseados) para a autopreservação e reprodução; posteriormente defendeu uma única fonte de energia psíquica que daria azo e dispersar-se-ia nas estruturas psíquicas do Id, Ego, e Superego, onde rivalizavam os imperativos do apetite, acomodação, e moralidade; finalmente, neste trio incorporou o par de instintos em oposição vida (eros) e morte (thanatos). Para Freud, os fins manifestos consistiam em falsos guias para os instintos implícitos, uma vez que a experiência trabalha por intermédio do ego para suprimir ou disfarças as expressões naturais, de acordo com as restrições sociais. Somente por recurso a técnicas de psicanálise, como as que usam a associação de palavras ou a descrição do sonho, podem vir à luz as dinâmicas internas das acções e preocupações humanas.

Todavia, Freud pouco esforço fez para acumular dados empíricos independentes para as suas teorias. Do mesmo modo, os seus escritos ocasionalmente sugerem que o instinto é como que uma energia cega, análoga à energia na física, ou que o instinto se origina num agente intencional que emprega estratégias visando fins. Consequentemente, para alguns críticos a psicanálise carece de ancoradouros empíricos firmes, e consistência conceptual para ser uma Ciência.

 

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References:

Darwin, C. (1964 [1859]) On the Origin of Species, Cambridge, MA .

 

Sulloway, F.J. (1992) Freud: Biologist of the Mind, Cambridge, MA.

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