Schönberg, Arnold

Biografia de Arnold Schönberg (1874-1951), compositor austríaco-americano, criador do método dodecafónico. Além de ser um dos músicos mais importantes do século XX foi também um dos professores mais influentes. Entre os seus estudantes encontram-se Berg e Webern.

Vida

Arnold Schönberg nasceu a 13 de Setembro de 1874, em Viena, numa família da pequena burguesia israelita. Nem o pai, Samuel, proprietário de uma sapataria no distrito Judeu, nem a mãe, Pauline, eram músicos mas como todos os austríacos da sua geração apreciavam música. Contudo, é de assinalar que a família contava com dois cantores profissionais, Heinrich Schönberg, irmão do músico, e Hans Nachod, primo (do lado da mãe).

Schönberg começou a compor e a tocar violino com oito anos de idade. Depois, dedicou-se ao violoncelo, com o intuito de fazer música da câmara. A sua formação musical foi sobretudo autodidacta, tendo como único professor, Alexander von Zemlinsky (1871-1942), que conheceu quando tocava violoncelo na orquestra amadora Polyhymnia, dirigida por este. Travaram conhecimento numa altura em que Schönberg teve de trabalhar num banco (1890-1895) para ajudar a família, depois da morte do pai em 1890. Na sua juventude apaixonou-se tanto por Wagner como por Brahms, o que na época parecia contraditório. Ainda que tenha tirado partido do elevado cromatismo wagneriano, seria o sentido de forma apreendido em Brahms que o acompanharia até nas obras dos seus últimos anos.

Zemlinsky tornou-se, ainda, seu cunhado, depois do casamento entre Schönberg e a sua irmã, Mathilde, em 1901. Tiveram dois filhos, Gertrud e Georg. No Verão de 1908, Gertrud abandonou Schönberg por um jovem pintor austríaco, mas acabou por regressar. O casamento nunca recuperou inteiramente mas permaneceram juntos até à morte de Mathilde, em 1923. O músico casou novamente, dez meses depois, com Getrud Kolisch, irmã do violinista Rudolf Kolish. Deste casamento, nasceram três crianças, Nuria, Ronald e Lawrence.

Além do evidente talento musical, Schönberg é conhecido pela sua aptidão para pintura. É um pintor consagrado, manifestando nas suas telas um expressionismo tão violento como o da sua música. Como Kandinsky, Klee e Fraz Marc, participou activamente no movimento que teve como órgão a revista Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul).

Auto-Retrato, Schönberg

Em Outubro de 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, emigrou para os Estados Unidos da América.  Adquiriu a nacionalidade norte-americana no ano e 1941. Viria a falecer em Los Angeles no dia 13 de Julho de 1951.

Obra

O período tonal e pós-romântico

Data de 1897 um «Quarteto para cordas em ré maior», escrito por Schönberg, ainda no espírito de Dvorák (1841-1904). Entre 1898 e 1900 compôs diversos lieder, doze dos quais viriam a constituir as suas op. 1 e 3. Um deles, em 1898, provocou escândalo e Schönberg afirmaria, muito mais tarde, que depois desse momento o escândalo seria permanente na sua vida. Logo em 1899 compôs, em três semanas, uma obra que apesar de mal recebida na sua primeira audição (Viena, 1902), tornar-se-ia numa das suas obras mais tocadas, o sexteto para cordas «Verklärte Nacht, op.4» (Noite Transfigurada), inspirado num poema de Richard Dehmel. Em 1917 e em 1943, o próprio compositor transpôs o sexteto para orquestra de cordas. Trata-se da primeira das suas grandes partituras ainda tonais e dentro de um estilo pós-romântico, ou seja, um cromatismo exacerbado mas que não rompe os limites do sistema tonal. Theodor Adorno, a propósito de «Verklärte Nacht» fez a seguinte observação: “As inovações decisivas de Schönberg não teriam sido possíveis se, em Verklärte Nacht, ele não se houvesse desviado da pompa dos poemas sinfónicos do seu tempo para tomar como modelo a severidade da escrita dos quartetos de Brahms”.

Deste período salientam-se ainda as obras «Pelléas und Mélisand, op.5» (Pelléas e Mélisand, 1903) e «Gurrelieder» (Cantos de Guerra, 1900-1911), baseados em poemas do escritor dinamarquês Jens Peter Jacobsen. Os «Gurrelieder», apesar de criados em 1900, só foram orquestrados em 1911 e exibidos, pela primeira vez, em 1913, em Viena. Esta exibição representou um triunfo para Schönberg dado que nos anos seguintes à criação dessa obra evoluiu radicalmente, o que não encontrou aceitação na sua cidade natal.

Entre 1901 e 1903, Schönberg viveu em Berlim, onde sobreviveu orquestrando operetas. Depois de regressar a Viena, descobriu Mahler, e começou uma longa carreira pedagógica, que marcaria profundamente a música do século XX. Entre os seus muitos alunos, destacam-se Anton Webern (1883-1945) e Alban Berg (1885-1935), que o seguiram, cada um à sua maneira. Estes três músicos constituem o trio de Viena. Com o primeiro «Quarteto para cordas, op.7» (1905) e, sobretudo, a «Sinfonia de Câmara, op.9» para quinze instrumentos solistas, o músico atingiu os limites do sistema tonal.

O estilo atonal livre

O passo decisivo para a atonalidade aconteceu em 1907-1908, com a criação do segundo «Quarteto para cordas, op.10». Os dois primeiros movimentos são ainda tonais mas os acordes dos dois últimos já não se encadeiam segundo as leis da tonalidade. Schönberg explicou que as dissonâncias eram tantas que seria impossível contrabalançá-las pelo simples aparecimento de acordos perfeitos correspondentes à tonalidade, pelo que lhe pareceu absurdo enquadrar à força referências tonais, se não existiam progressões harmónicas que se relacionassem.

É interessante notar que as primeiras páginas atonais de Schönberg foram compostas aquando do surgimento do cubismo na pintura. Impõe-se mesmo um certo paralelo entre esta obra e as «Demoiselles d’Avignon» de Picasso (do mesmo ano): aos dois primeiros movimentos (ainda tonais) corresponde a parte esquerda, e mais tradicional do quadro; aos dois últimos movimentos (atonais), a parte direita e cubista.

Demoiselles d’Avignon, Pablo Picasso

Seguiu-se um período de criação intensa, dentro deste estilo “atonal livre”: «Buch der Hängenen Garten, op.15» (Livro dos Jardins Suspensos), «Cinco peças para orquestra op.16» (1909), «Três peças para piano op.11» e «Erwartung, op.17», um mono drama com texto de Maria Pappenhiem, que só haveria de ser montado em 1924. Na op.16, a orquestra é tratada como um grande conjunto de solistas, evidenciando um interesse pelo timbre em si, ao ser feita quase exclusivamente de um único acorde de cinco notas transferidas de um registo a outro e de um instrumento para outro. Schönberg colocou em prática um princípio que já havia definido num dos seus trabalhos teóricos, «Klangfarbenmelodie» (melodia de timbres). Erwartung, com uma duração de cerca de meia hora, coloca em cena uma única personagem: a mulher que procura o seu amante pela floresta e acaba encontrando o seu cadáver. Foi levado ao limite extremo o princípio de não-repetição de uma ideia musical, e tornou-se, assim, na primeira obra de conteúdo psicanalítico a marcar presença na história da música.

Em 1911, Schönberg compôs «Herzgewächse, op.20» (Folhagens do Coração), sobre a tradução de um poema de Maeterlinck, e terminou o «Tratado de Harmonia», voltando a instalar-se em Berlim, onde permaneceu até 1914. Na capital alemã compôs a obra que o tornou célebre, «Pierrot Lunaire, op.21», com um conjunto de pequenos textos, organizados pelo próprio, do poeta belga Albert Giraud. A obra, encomendada pela actriz vienense Albertine Zehme, é composta por 21 peças, com duração média de minuto e meio cada uma. A voz é tratada segundo o princípio de Sprechgesang, que consiste na emissão da voz meia falada e meia cantada.

Em 1913, escreveu «Die glückliche hand, op.18» (A mão afortunada), um drama com música de um libreto da sua autoria. Entre 1913-1916 foi a vez dos quatro lieder com orquestra, op.22. Nos anos seguintes, nada publicou. Trabalhou na composição do oratório inacabado «Die Jaobsleiter» (A escada de Jacob, 1917-1922), mais uma vez com um libreto de autoria própria. Ocupou-se, também, com a Sociedade de Execuções Musicais Particulares, onde tentou, entre 1918 e 1921 (data do seu encerramento) dar lugar à música contemporânea, através de apresentações dos grandes músicos modernos da época.

Dodecafonismo

Foi nesta altura que se dedicou à concepção do dodecafonismo, um método de composição de doze sons que se relacionam exclusivamente entre si.

Schönberg definiu-se como um conservador a quem forçaram ser revolucionário. Esta visão de si próprio alude ao forte sentido de história que acompanhava o compositor. Considerou-se, sempre, um herdeiro autêntico da tradição clássica e romântica germânica, e, nessa qualidade, uma força histórica inevitável. Assim, assumiu para si a missão de acabar com o sistema tonal (constatando o esgotamento da tonalidade) e, em seguida, erguer um novo sistema no seu lugar. Esta revolução começou com o atonalismo livre, fase descrita acima, e continuou com a concepção do dodecafonismo. Em 1921 fez a seguinte declaração ao seu discípulo Josef Rufer (1893-1985): “Fiz uma descoberta que garantirá a predominância da música alemã nos próximos cem anos”.  Contudo, o caminho trilhado por Schönberg enfrentou muita oposição e incompreensão na altura.

As primeiras manifestações do método dodecafónico encontram-se na valsa que encerra as «Cinco peças para piano, op.23» (1920-1923), o «Soneto de Petrarca, op.24» (1920-1923, e, sobretudo, a «Suite para piano, op. 25» (1921-1923). Mas as obras onde realmente aplicou o dodecafonismo como se fosse um rigoroso e complexo método científico, caracterizado, ao mesmo tempo, por virtuosismo extremo foram o «Quinteto para instrumentos de sopro, op. 26» (1923-1924), o terceiro «Quarteto para cordas, op.30» (1927) e, acima de tudo, as imponentes «Variações para orquestra, op.31» (1926-1928). Aplicou o seu método também ao teatro, através da ópera bufa «Von heute auf Morgen, op.32» (De hoje para amanhã, 1928-1929), com libreto da autoria da sua segunda mulher (Gertrud Schönberg, com o pseudónimo de Max Blonda). Voltando-se novamente para o piano, compôs as «Peças para piano, op.33a e op.33b» (1931).

Arnold Schönberg, 1927

O Terceiro Reich e os EUA

Professor titular desde 1925 de uma classe de composição na Academia de Artes de Berlim, abandonou a Alemanha com a ascensão de Hitler ao poder, justamente quando terminou os dois primeiros actos de uma obra destinada a permanecer inacabada, a ópera «Moses und Aron» (Moisés e Aarão), mais uma vez, com um libreto escrito pelo próprio. Primeiro, passou por Paris onde no dia 30 de Julho de 1933 voltou a afirmar, formalmente, a sua crença na religião judaica (aos 18 anos tinha-se convertido ao protestantismo). Embora essa iniciativa tenha sido parte de uma evolução interior que tivera início um pouco depois de 1920, e que se manifestara notoriamente na composição de uma obra que não publicada, «Der biblische weg» (O caminho bíblico), não é descabido afirmar que foi, também, uma reacção ao anti-semitismo propagado pelo regime nazi. Em Outubro de 1933, emigrou para os Estados Unidos da América, de onde não voltaria a sair.

Começou por dar aulas em Boston e depois em Nova Iorque mas instalou-se em Los Angeles, a partir de 1936, onde ensinou na Universidade da Califórnia. Este período californiano provou-se profícuo para Schönberg porque compôs duas grandes obras dodecafónicas: «Concerto para violino e orquestra op.36» e  o quarto «Quarteto para cordas, op.37». Mais tarde, reintroduziu na sua música algumas referências tonais, como em «Kol Nidre op.39» ou na «Ode a Napoleão, op.41», baseada num poema de Byron. Devido a problemas de saúde aposentou-se da sua posição enquanto docente mas teve de aceitar alunos particulares para viver. Em 1945, a Fundação Guggenheim recusou um pedido para uma bolsa, com a qual esperava concluir a oratória «Die Jakobsleiter», a ópera «Moses und Aron» e diversas obras teóricas.

No dia 2 de Agosto de 1946, depois de uma violenta crise de asma, o coração de Schönberg parou mas uma injecção salvou-lhe a vida. O «Trio para cordas, op.45», escrito entre 20 de Agosto e 23 de Setembro, foi a tradução musical desse momento. No ano seguinte, o relato de um fugitivo de um gueto inspirou-o a compor «Um Sobrevivente de Varsóvia, op.46». As últimas criações de Schönberg foram vocais e de inspiração religiosa. Em 1950, trabalhou na composição de «Salmos Modernos» mas a sua morte, no dia 13 de Julho de 1951, deixou esta última obra inacabada. A título de curiosidade, Schönberg, que sempre admirou a astrologia, receava o número treze. No dia do seu aniversário, em 1950, uma astróloga disse-lhe que os números 7 e 6 (tinha completado 76 anos), somavam o total 13, algo que ele não tinha reparado. No dia da sua morte (13 de Julho) passou todo o dia na cama, num estado de elevada ansiedade e depressão, falecendo perto da meia-noite, a poucos meses de completar os 77 anos de idade.

Síntese sobre Arnold Schönberg

Nascimento 13 de Setembro de 1874, Viena, Áustria
Morte 13 de Julho de 1951, Los Angeles, Estados Unidos da América
Nacionalidade Austríaco-Americano
Esposas Mathilde Zemlinsky (1901-1923), Gertrud Kolisch (1898–1967)
Filhos
Nuria Schoenberg, Ronald Schoenberg, Lawrence Schoenberg, Georg Schönberg, Gertrud Greissle
Ocupação
Compositor, professor e teórico
Contributo para a música
Concepção do dodecafonismo como resposta à crise da tonalidade do século XX e continuação da tradição clássica e romântica alemã
Principais Obras «Verklärte Nacht»; «Gurrelieder»; «Pierrot Lunaire»; «Erwartung»; «Variações para orquestra, op.31»; «Von Heute of Morgen»; «Moses und Aron»; «Concerto para violino e orquestra, op.36»; «Trio para Cordas, op.45»; «Um sobrevivente e Varsóvia, op.46»; quatro Quartetos de Cordas; entre outras
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References:

Kuiper, K. (2015). Arnold Schoenberg. Em http://www.britannica.com/biography/Arnold-Schoenberg

Massin, J. & Massin, B. (1983). História da Música Ocidental. Editora Nova Fronteira, S.A: Rio de Janeiro.

Schwartz, S. (nd). Arnold Schoenberg. Em http://www.classical.net/music/comp.lst/schoenberg.php

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