Dodecafonismo

O dodecafonismo é um sistema de composição atonal, criado pelo compositor austríaco Arnold Schönberg (1874-1951), que consiste na utilização dos doze graus da escala cromática, sem qualquer relação entre eles, prescindindo-se, assim, do sistema tonal. Os doze graus são apresentados sob a forma de uma série de doze sons, dodecafónica, que constituem um esquema formal básico, que actua como princípio organizador do tema.

Origem do dodecafonismo

O dodecafonismo surgiu como uma das respostas possíveis ao problema de continuação da escrita de música face à desorientação produzida pela crise da tonalidade, que se verificava no início do século do século XX.

A criação do método dodecafónico foi obra de Schönberg (1874-1951) e firmou-se por volta do ano de 1923. Anteriormente, o compositor austríaco Joseph Matthias Hauer (1883-1959) desenvolvera um sistema semelhante a este. Ambos os compositores partiram da necessidade musical comum aos compositores da época (referida no parágrafo acima) mas foi Schönberg que o desenvolveu a fundo e o codificou, estabelecendo assim um verdadeiro vocabulário musical e, acima de tudo, uma possibilidade de organização coerente de toda a composição musical.

Schönberg, após longos anos de reflexão sobre a prática musical, encontrou um novo princípio ordenador (antes exercido pela tonalidade) no instrumento de trabalho que é o método dodecafónico.

O conceito

O dodecafonismo utiliza, então, os doze graus da escala cromática, sem qualquer relação hierárquica entre eles, prescindindo das relações do sistema tonal. Os doze graus são apresentados numa série de doze sons, dodecafónica, que constitui um esquema formal básico que actua como princípio organizador do tema. As doze notas da escala aparecem melodicamente na série, e numa determinada ordem, que se mantém inalterável ao longo de toda a obra. Para evitar que um dos graus se sobreponha aos demais, nenhum deles pode ser repetido antes da série ser apresentada na sua totalidade.

A série de doze sons pode servir indistintamente de base a uma obra curta ou a uma obra de grandes dimensões, e pode ser ainda utilizada numa mesma obra de maneiras diferentes: na sua forma fundamental e em três formas dela derivadas. Por sua vez, como cada uma destas formas pode ser transposta aos restantes onze sons da série, o compositor acaba por ter à sua disposição um total de 48 permutações da série utilizada. No início, a série afectou unicamente a altura dos sons, mas mais tarde estendeu-se a outros elementos musicais. A complexidade da organização serial, que não é superior à da música tonal tradicional, não constitui qualquer espécie de obstáculo para que o ouvinte compreenda a impressão da obra musical.

O dodecafonismo de Schönberg

O compositor empregou as suas novas técnicas com grande rigidez, dado que queria demonstrar que o método poderia ser um novo princípio ordenador. Deste período, são características a «Suite para piano, op.25» (1921-1923) e o «Quinteto de sopro, op.26» (1924), obras clássicas da técnica de doze graus.

Depois da codificação do método (1923), Schönberg e os seus discípulos mais próximos escreveram obras dodecafónicas num ambiente de incompreensão geral. Só depois do final da Segunda Guerra Mundial se verificou a difusão do método dodecafónico, revelando-se como uma via que facilitava a escrita da música mais significativa da primeira metade do século.

Schönberg provou que era capaz de escrever música estruturada mas ao mesmo tempo muito expressiva, em obras como as «Variações, op.31» (1926-1928), a primeira composição serial para teatro, a ópera «Von Heute auf Morgen, op.32» (De hoje para amanhã, 1929) e a ópera incompleta «Moisés e Aarão» (1930-1932). Durante a sua fase americana , o compositor escreveu obras notáveis, nalgumas das quais aplicou o método dodecafónico com fragmentos que apresentam um acento tonal. As suas últimas obras foram vocais e com base em textos religiosos: «De profundis» (1950) e «Salmos Modernos» (1951).

O dodecafonismo dos discípulos de Schönberg

O discípulo de Schönberg, Alban Berg (1885-1935), serviu-se do método dodecafónico sem que isso constituísse obstáculo para exprimir livremente a sua força lírica e dramática.

Berg, contrariamente a Schönberg, utilizou o dodecafonismo de uma forma muito mais livre, utilizando notas fora da ordem e, frequentemente, fazendo uso de material completamente externo ao sistema, se tal lhe parecesse necessário para criar o efeito desejado. Este compositor ordenava as notas de uma série de modo a deixar implícito acordes reconhecíveis do sistema tonal. Tome-se, por exemplo, o «Concerto para Violino», onde no último movimento introduz um coral de J.S.Bach que começa com quatro tons.

A forma como Berg mistura o método dodecafónico com harmonias próprias do sistema tonal é, provavelmente, a principal razão pela qual muitos ouvintes julgam a sua música como mais acessível relativamente a Schönberg e a Webern.

Antón Webern (1883-1945) adoptou o dodecafonismo de uma forma radical e extrema, surpreendendo até Schönberg.

Webern construiu uma arte pessoal contida e austera. Algumas das suas obras são de uma brevidade extrema, já que se baseiam no princípio de não repetição de Schöenberg. Esta concisão nunca o impediu de conseguir uma ampla gama expressiva. Por outro lado, atribuiu uma grande importância ao papel do timbre vocal ou instrumental, que representa uma importante dimensão na sua obra.

As duas preocupações que o afastaram da música tradicional foram as seguintes: o problema da ocupação total do espaço sonoro, conceito que em certa medida foi criado por ele, e o uso funcional do silêncio. Estas preocupações contribuíram para que a sua música tenha sido difícil de compreender e para que o músico que afirmara que a clareza era o princípio essencial da criação musical, tenha sido acusado de hermetismo.

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References:

Albet, M. (1979). A Música Contemporânea. Salvat Editora do Brasil, S.A: Rio de Janeiro.

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