Anamórfica

Anamórfica ou anamorfose é um termo de origem grega (ἀναμόρϕωσις), (an + morphé) que significa sem forma ou deformado. É um termo utilizado para designar a uma imagem distorcida que, pela observação de um ponto focal específico ou através de um objecto reflector (espelhos), aparece reconstituída aos nossos olhos, como uma espécie de ilusão óptica, que impressiona e inspira.

A especifica utilização de espelhos, na exploração desta técnica, tem os primeiros registos na China Antiga, difundida para transmitir mensagens políticas, caricaturas e imagens eróticas para aqueles que conhecessem o “segredo” do espelho.

Mas o termo ganhou popularizou-se no cinema com a criação das lentes CinemaScope, que permitiram a apresentação de uma imagem duas vezes mais larga, usando a área de um negativo convencional. A imagem captada apresenta-se distorcida no negativo, mas é expandida para as proporções naturais no ecrã de cinema, por uma lente colocada no projector com efeito inverso.

Nos dias de hoje, este termo é utilizado nas mais diversas áreas das ciências exactas e das artes como: na matemática, na biologia, na geologia e na óptica e nas artes visuais, com diferentes definições, dependendo da área.

Nas Artes Visuais, Anamórfica ou anamorfose é uma técnica artística, para um aperfeiçoamento da perspectiva. Consistindo numa imagem ou figura que é representada distorcida para que, ao ser contemplada desde determinado ângulo ou ponto de vista, resulte correcta nas suas proporções, corrigindo assim os inevitáveis achatamentos das pinturas situadas a grande altura ou as deformações realizadas em superfícies curvas, como abóbadas.

Uma imagem Anamórfica tem um efeito de perspectiva utilizado para forçar o observador a colocar-se sob um determinado ponto de vista, o único a partir do qual o elemento recupera a uma forma proporcionada e clara.

Na pintura a técnica de anamorfose esteve o seu auge na pintura mural dos séculos XVI e XVII, para criar ilusões de ótica na pintura sobre superfícies curvas, como as abóbadas das igrejas, por exemplo, onde a deformação de perspectiva permite a visão correcta somente a partir de um único ponto de vista: se o observador se colocar em qualquer outra posição, a imagem fica deformada e incompreensível.

Os primeiros experimentos desta técnica datam do século XV, utilizados em diversos quadros, murais e afrescos onde a pinturas se confunde com a arquitectura das paredes.

Esta técnica/método foi descrita pela primeira vez, nos estudos de Piero della Francesca (1415 – 1492) sobre perspectiva, no seu tratado “De prospectiva pingendi”. Piero della Francesca foi um dos mais importantes artistas do Quatrocentos italiano, a sua obra desenvolve-se entre a década de 40 e meados da década de 70 e paralelamente ao seu trabalho como pintor, escreve três importantes tratados matemáticos, onde o “De prospectiva pingendi” é o único relacionado à pintura, nesta obra apresenta, em três livros, uma série de proposições e inúmeras demonstrações práticas de projecções baseadas na perspectiva.

Os Embaixadores“ (1533), do pintor alemão Hans Holbein, onde uma caveira se revela quando observada sob um determinado ângulo, é o exemplo mais conhecido de Anamorfose deste período.

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“Os Embaixadores“ (1533), Hans Holbein

A cena é representada de forma naturalista, cheia de detalhes e minuciosamente descritiva, seguindo a linha do maneirismo alemão e da arte do jovem Hans Holblein. Tudo conforme a etiqueta, não fosse a mancha deformada no centro da tela. Trata-se de uma caveira que se pode ver quando o olhar está oblíquo, vendo a tela de lado, abstraindo toda a cena no crânio que salta à percepção. Uma caveira em representação anamórfica, que enche de mistério esta pintura, seja em sua forma natural, seja na distorção que incomoda a visão, porque pouco ou nada, se sabe das intenções do artista.

Actualmente, esta técnica ganha visibilidade e dinamismo, na chalk art de Kurt Wenner e Julian Beever traz a arte anamórfica literalmente para as ruas com seus desenhos tridimensionais.

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Arte anamórfica ou chalk art, kurt Wenner

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References:

BERTELLI, C. Piero della Francesca, La forza divina della pintura, Almicare Pizzi editore. 1991

COLLINS, D. L. Anamorphosis and the Eccentric Observer: Inverted Perspective and Construction of the Gaze: Leonardo, Vol. 25, No. 1, pp. 73-82, 1992

KLEIN, R. A forma e o inteligível. Edusp. São Paulo, 1998

PANOFSKY, E. La Perspective comme Forme Symbolique. Paris: Ed. De Minuit, 1927

VELTMAN, K.H. Perspective: Anamorphosis and Vision. Marburger Jahrbuch, Vol. 21, pp. 93-117, 1986

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