Naturalismo

Naturalismo é um movimento artístico-cultural que atingiu às artes plásticas, literatura e teatro em meados do século XIX. O Naturalismo é considerado uma ramificação radical do Realismo, pois também tem o objectivo de retratar a realidade assim como ela é.

É uma tendência das artes visuais que tenta reflectir a realidade sem idealização ou dramatização da mesma. O naturalismo tratou as suas personagens e o estudo detalhado das suas características, dando-nos uma concepção e uma visão muito diferente da pintura e da realidade.

“O que é realismo para o teórico da arte? É uma corrente artística que propôs como objectivo, reproduzir a realidade o mais fielmente possível e que aspira ao máximo de verosimilhança. Declaramos realistas às obras que nos parecem verosímeis, fiéis à realidade” (JAKOBSON, 1971, p. 120).

Uma das grandes preocupações das obras naturalistas é a relação entre o homem e as “forças da natureza”. O Naturalismo teve uma forte influência da teoria do evolucionismo de Charles Darwin, entre outras correntes de pensamento científico que predominava na Europa, com o socialismo e o positivismo.

O ser humano era analisado e representado a partir de seus comportamentos patológicos, os seus desejos e taras sexuais, do seu lado animalesco, da sua agressividade e das suas características fisiológicas e naturais. O homem é apenas um “fruto” da natureza. A ideia de “selecção natural” de Darwin seria o motor que motivava a transformação das espécies, de acordo com o pensamento naturalista.

Jean-François Millet, As Catadoras, 1857

Jean-François Millet, As Catadoras, 1857

Os pintores naturalistas não reproduziam temas históricos, mas sim a natureza. De 1840 até 1865, aproximadamente, o “naturalismo” tornou-se um termo chave para os críticos que reverenciavam os pintores que retratavam a natureza. A palavra foi empregue com frequência pela crítica de arte do século XIX, especialmente na França.

O romance realista encara a podridão social numa atitude fidalga de quem deseja curar os males sociais, mas sente perante eles profunda náusea, própria dos sensíveis e estetas. O naturalista, controlando a sua sensibilidade, ou acomodando-a à ciência, põe luvas de borracha e não hesita em chafurdar as mãos nas pústulas sociais e analisá-las com rigorismo técnico, mais de quem faz ciência do que literatura. Em suma, realistas e naturalistas amparam-se nos mesmos preconceitos científicos bebidos na atmosfera cultural que envolve a todos, mas diferenciam-se no modo como aproveitam os dados de conhecimento na elaboração da sua obra de arte.

Características do Naturalismo

  • Abordagem de temas polémicos, como crimes, adultério, incesto, homossexualidade, pobreza e etc.
  • “Cientificismo exagerado” – o narrador toma a posição de um “cientista”, que observa as relações e fenómenos sociais como se observasse uma experiência científica.
  • Forte influência da teoria da evolução de Charles Darwin.
  • Realidade é abordada a partir do pensamento científico, sob a influência do positivismo.
  • Nas artes plásticas, os pintores recriavam paisagens naturais ou cenas da “vida real”, ou seja, pintavam aquilo que observavam.
  • Hereditariedade – o ser humano está cerrado nas suas características biológicas e ao meio sociais em que vive.
  • Desejo de “reformar a sociedade”.

A transição do termo das Belas-Artes para a crítica literária deu-se efectivamente pelas mãos de Émile Zola. Na década de 60 do século XIX, Zola foi apresentado aos principais pintores naturalistas franceses, por intermédio de Cézanne, seu amigo de infância. Zola afinou-se rapidamente com o princípio artístico e com a ousadia desses pintores, que encontravam forte resistência na Académie des Beaux-Arts, pois não faziam pinturas de temáticas histórico e mitológicas, escuras e tristes. Ao contrário do que se fazia até então, retratavam a realidade quotidiana por meio de uma combinação de cor e luz. Em artigos escritos em defesa dos pintores impressionistas, Zola empregou livremente os vocábulos “impressionista”, “realista”, “naturalista” e, até mesmo, “actualista”, como sinónimos. Esta é, portanto, a origem do uso do termo aplicado à literatura.

O escritor naturalista apoia-se no método científico para escrever romances. A ciência permite a apresentação de uma visão específica do homem que, por sua vez, opõe-se à visão de neutralidade do realismo.

O naturalismo é, pois, resultado da fusão de um realismo mimético com os elementos das ciências naturais, aos quais os naturalistas deram grande ênfase. É por isso que Paul Alexis, o discípulo mais fiel de Zola, o resume como “um método de pensar, de ver, de reflectir, de estudar, de experimentar, uma necessidade de analisar para saber, e não uma maneira especial de escrever” (FURST, 1971, p. 19).

O Naturalismo difere do Realismo, apesar de ambos crêem que a arte é a representação mimética e objectiva da realidade exterior. Foi a partir desta tendência para o Realismo mimético que o Naturalismo surgiu, sendo por isso muitas vezes encarado como uma intensificação do Realismo. O Naturalismo tornar-se numa doutrina com uma visão muito específica do Homem e do seu comportamento, tornando-se mais concreto mas também mais limitado que o Realismo.

Em Portugal o Realismo e o Naturalismo, à semelhança do que ocorre com a literatura francesa, são duas direcções estéticas com certa independência. Enquanto o Naturalismo implica uma posição combativa, de análise dos problemas que a decadência social evidenciava, fazendo da obra de arte uma verdadeira tese com intenção científica, o Realismo apenas «fotografa» com certa isenção a realidade circundante, sem ir mais longe na pesquisa, sem trazer a ciência, dissertativa para o plano da obra.

Em Portugal surge mais tarde, mas em compensação e apesar de partir dos modelos franceses, desenvolve-se de modo original, tanto ao nível da pintura como da escultura, colocando-se entre as principais “escolas” naturalistas mundiais.

É introduzido por Marques de Oliveira e Silva Porto, na década de 70 do século XIX, quando regressam de Paris, após uma estadia como Bolseiros do Estado. As bolsas de estudo na capital francesa eram prémios muito disputados, mas atribuídos apenas aos melhores estudantes das academias de Lisboa e Porto, com o objectivo de manter actualizada a arte nacional. O contacto com os artistas de Barbizon, naturalistas, realistas e impressionistas, bem como a animada atmosfera artística parisiense, permitiu abrir novas perspectivas para desenvolver uma abordagem diferente da pintura portuguesa.

A lista de artistas é grande. Além de Silva Porto e Marques de Oliveira devem ser destacados muitos outros. Assim são de referir os seguintes pintores: José Malhoa, Simão da Veiga, Henrique Pousão, Columbano, Sousa Pinto, António Ramalho, João Vaz, Carlos Reis, Luciano Freire, Alfredo Keil, Artur Loureiro, Aurélia de Sousa e outros.

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References:

FURST, Lilian R. & SKRINE, Peter N. O naturalismo. Lysia – Lisboa, 1971.

HAUSER, Arnold. Naturalismo e impressionismo – História social da arte e da literatura. Martins Fontes – São Paulo, 2003.

JAKOBSON, Roman. Do realismo artístico. In: EIKHENBAUM, B. et alii. Teoria da literatura; formalistas russos. Globo – Porto Alegre, 1971.

MOISÉS, Massaud, DICIONÁRIO DE LITERATURA, 3ª edição, 3º volume. Figueirinhas – Porto, 1979.

MORAIS, Frederico. Panorama das artes plásticas séculos XIX e XX. Apresentação Ernest Mange. 2. ed. rev. São Paulo: Itaú Cultural, 1991.

SILVA, Kalina Vanderlei e SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos, 3ºEd. Editora Contexto. São Paulo, 2012.

WELLEK, René. História da crítica moderna; 1750-1950. São Paulo: EdUSP, 1972. V. 4.

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