O Teatro do Oprimido é indissociável do seu criador, Augusto Boal. A principal premissa do Teatro do Oprimido é, prmeiramente, teatralizar situações de opressão presentes na vida real para, em seguida, moldar e adulterar essas situações, abrindo nelas caminhos de emancipação.
É um teatro marcadamente político, transformador e colocado do lado dos mais fracos. Ao contrário do teatro tradicional, a ideia é que o espectador se torne sujeito atuante da peça, que representa factos da sua vida, tomando consciência da sua autonomia e consciência das suas diferentes possibilidades de ação.
Augusto Boal
Augusto Boal nasceu no Rio de Janeiro em 1931. Estudou Engenharia Química na UFRJ, enquanto escrevia textos para teatro. Em seguida completou, durante a década de 50, o doutoramento em Engenharia Química em Nova Iorque, estudando também dramaturgia com John Grassner.
A conceção do Teatro do Oprimido nasceu, em 1956, duma representação de um musical a uma lida camponesa, quando Boal era diretor do Teatro de Arena de São Paulo. No final da peça, os camponeses, encorajados pela chamada a defender a terra com o sangue, quiseram levar os actores para a luta armada. Estes recusaram prontamente, mas Boal percebeu que o teatro não deveria dar conselhos, mas sim dialogar com os seus espectadores.
A ideia era, para Boal, ultrapassar a distância passiva do espectador num sujeito que atua, e transforma a ação dramática, espelho da situação na vida real. Como o autor afirmou “Todos os seres humanos são atores – porque atuam – e espectadores – porque observam. Somos todos espect-actores.”
Pela sua oposição à ditadura militar, é expulso do Brasil em 1971, estabelecendo-se na Argentina, onde começa a desenhar as bases teóricas do Teatro do Oprimido, depois de ter excursionado com o grupo Arena entre 1969 e 70 pelos Estados Unidos, México, Peru e Argentina.
Em 1981, volta ao seu país para promover o I Festival Internacional do Teatro do Oprimido. Volta definitivamente ao Brasil em 1986, com a amnistia e fundou em 1986 o Centro do Teatro do Oprimido que dirigiu até ao final da sua vida, como centro de democratização dos meios de produção cultural e consolidação da cidadania.
O Teatro invisível
Uma das principais formas do teatro idealizado por Boal é o Teatro invisível, um teatro público que envolve os participantes sem que estes saibam, similar à agit-prop. A ‘peça’ acontece num cenário que é também parte da realidade, mas com atores que procuram uma subversão do comportamento “normal” em sociedade. Um ou vários ‘agentes provocadores’ lançam um incidente de forma a provocar a discussão na audiência.
Por exemplo, num das peças, um homem do grupo de Boal começou a provar roupas de mulheres, enquanto outro expressou a sua “profunda indignação”, procurando fomentar a discussão nos, agora, espectadores.
O Fórum Teatro
Esta é a forma mais conhecida do Teatro do Oprimido. Nesta, um problema é primeiramente apresentado um sintoma de opressão não resolvido. O protagonista é vítima da opressão, sendo que os ‘espect-actores’ são chamados para resolverem o sintoma. A segunda apresentação da peça é ligeiramente acelerada, até que um membro do público grite “Stop” e tente parar o ciclo da opressão, tomando o lugar da protagonista. O objetivo é criar no teatro, de forma ficcionada, soluções alternativas para a opressão, para tentar criar e extrapolar depois para vida real.
Legado
Boal foi nomeado em 2009, embaixador mundial da Unesco para o Teatro. Morreria nesse mesmo ano, tendo podido assistir e ajudar em vida à expansão desta forma política de Teatro para os quatro cantos do planeta, por mais de 70 países.
Boal morreu, mas a sua criação continua viva e presente, sintetizada em dois livros fundamentais O Arco-íris do Desejo e Jogos para Actores e não-actores. No The Guardian, Boal foi descrito como alguém que “reinventou o teatro político e uma figura tão importante como Brecht ou Stanislavski”, pela sua criatividade ao adaptar de uma forma de arte tão antiga como a Humanidade a favor dos oprimidos.
Como está escrito na sua Declaração de Princípios: “O Teatro do Oprimido é um ensaio para a realidade. O objetivo mais geral é o desenvolvimento dos Direitos Humanos essenciais”, talvez melhor exemplificado por uma senhora que, depois de participar numa das peças afirmou: “Agora olho para o espelho e vejo uma mulher. E o que é que você via antes? Uma doméstica”.