Perturbação factícia

A perturbação factícia caracteriza-se pela indução de sintomas ou doenças com vista à obtenção de atenção e cuidados médicos.

A perturbação factícia caracteriza-se pela indução de sintomas ou doenças com vista à obtenção de atenção e cuidados médicos.

De acordo com os trabalhos de Aranha, Carvalho, Guarniero e Soares (2007) o paciente portador de perturbação factícia busca a atenção do médico e da sua equipa através de sinais e sintomas que ele próprio, conscientemente e por vontade própria, provoca.

No entanto, apesar de ser provocado conscientemente, este tipo de perturbação acontece originado por uma motivação inconsciente (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007).

Tendo em conta o quadro clínico observado, não é de estranhar que um dos denominadores comuns à maioria destes pacientes é o facto de todos eles terem um histórico de várias passagens por diferentes médicos e hospitais e com motivos bastante similares entre si (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007).

A gravidade da perturbação prende-se com o facto de que muitas vezes, para que os sintomas apareçam, os pacientes chegam mesmo a auto flagelar-se ou a colocar-se em situações de risco que lhes podem provocar infeções de pele por contaminação de fezes, por exemplo (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007).

Não é, também, pouco frequente, que estes doentes, devido ao facto de fazerem uso indevido de medicações prescritas, acabem por fazer febres bastante altas, o que os leva, por consequência, a fazer vários exames bastante invasivos, por vezes, que provocam ferimentos e até mesmo marcas que ficam em forma de cicatriz (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007).

Alguns dos sintomas possíveis de observar quando estamos perante um quadro de perturbação factícia são:

  • Invenção dos factos;
  • Simulação;
  • Exagero;
  • Agravamento da situação;
  • Auto indução da doença.

((Krahn, Li, & O’Connor, 2003, p. 1165).

Ao contrário do que acontece com o paciente padrão, os pacientes com perturbação factícia demonstram satisfação na realização destes exames, muitas das vezes, com maior motivação quando o tipo de exame a fazer, se torna mais agressivo (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007). Estes exames, devido à sua natureza agressiva e intensa, chegam mesmo a causar danos irreversíveis bem como elevados custos para a sociedade (Krahn, Li, & O’Connor, 2003).

Os destes estudos preocuparam-se em compreender as verdadeiras motivações destes pacientes para adotar condutas enfermas, voluntariamente, o que apontou para a possibilidade de os mesmos procurarem nos médicos o carinho e o afeto que possam estar em falta na relação que têm com os pais (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007). Devido aos sintomas da doença e a todo o processo envolvido, o que acaba por acontecer é que o paciente compromete não só a sua autoimagem mas ainda a sua própria identidade (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007).

Características mais comuns à maioria da população portadora da perturbação factícia

No que diz respeito ao tipo de perfil destes pacientes, segundo Aranha, Carvalho, Guarniero e Soares (2007) verificam que, na maioria dos casos, os mesmos seguem profissões ligadas à área da saúde e costumam ter quocientes de inteligência (qi) iguais ou superiores à média. Os autores não deixam de evidenciar o facto de haver uma grande discrepância entre as competências dos pacientes e o comportamento adotado pelos mesmos já que estamos perante indivíduos com altas capacidades, no gera, com tendência para condutas extremamente infantilizadas (Aranha, Carvalho, Guarniero, & Soares, 2007).

Corroborando estes estudos, as pesquisas de Krahn, Li, e O’Connor, (2003) indicam ainda que se trata, habitualmente, de pacientes que tiveram acesso a boas escolas e a uma educação de alta qualidade, pertencendo, portanto, a uma classe sócio económica média alta.

Apesar destes denominadores comuns no que diz respeito ao perfil do paciente, outros estudos indicam que, em termos populacionais, estes pacientes são extremamente heterogéneos (Krahn, Li, & O’Connor, 2003).

Conclusão

Verifica-se que a perturbação factícia se assemelha à Síndrome de Munchausen, uma vez que ambas se caracterizam pela simulação ou indução do mal estar, com vista a obter atenção e cuidados por parte dos médicos. Tal como na síndrome supracitada, o doente compreende um histórico clínico de vários internamentos e vários profissionais, com tratamentos e exames invasivos que, por vezes, acarretam cicatrizes que permanecem para a vida. Na maioria dos casos, observam-se indivíduos com competências iguais ou superiores à média, que poderão ter sofrido lacunas significativas no seu histórico de vida que levem à adoção destes comportamentos.

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References:

  • Aranha, G.F., Carvalho, L.Z.M., Guarniero, F.B., & Soares, S.M.S.R. (2007). Transtorno factício: um desafio para as diversas especialidades. Facticious disease: a challenge to several specialities. Revista Medicina (São Paulo). 2007 jan.-mar;86(1):14-9. http://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/59168/62186;
  • Krahn, L.E., Li, Hongzhe, & O’Connor, M.K. (2003). Patients Who Strive to Be I!||: Factitious Disorder With Physical Symptoms. The American Journal of Psychiatry. Volume 160, issue 6, June 2003, pp.1163-1168. https://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/appi.ajp.160.6.1163.
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