Perturbação Esquizóide

Conceito de Perturbação Esquizóide

A perturbação esquizóide é uma perturbação da personalidade (Eixo II, do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) que integra o grupo das perturbações com características excêntricas ou bizarras. Os indivíduos com organização esquizóide da personalidade apresentam indiferença relativamente a relacionamentos interpessoais, que se estende às relações familiares, de amizade e românticas/sexuais, estas últimas inexistentes ou mantidas na ausência de intimidade. Preferem atividades solitárias (profissionais e de lazer), por oposição ao convívio social, que é percebido como confuso e intrusivo.

A indiferença é acompanhada de apatia, experiência e expressão emocional embotadas, inclusive na presença de situações, por norma, geradoras de experiência emocional quer agradável (e.g. alegria), quer desagradável (e.g. medo, zanga). São percebidos como estranhos e frios, perante a estimulação ou comunicação dos outros, à qual frequentemente não reagem ou reagem monotonamente.

Conceptualização

Do ponto de vista do desenvolvimento, indivíduos com organização esquizóide da personalidade parecem apresentar representações internas pobres das principais figuras de vinculação da infância. Estas representações resultam, por sua vez, de vinculações sem laços afetivos sólidos, contribuindo não só para a ausência de necessidade de se relacionarem com os outros, mas também para a construção de um self amorfo, com poucas ou nenhumas motivações.

O contexto familiar pode constituir um factor predisponente, quando os seus elementos mantêm relacionamentos sem intimidade emocional, excessivamente formais ou reservados; ou de manutenção, quando as figuras de vinculação desinvestem emocionalmente na criança perante a sua não-reatividade à estimulação. Deste modo, o indivíduo desenvolve-se e aprende a ser na ausência de experiência emocional e de significados, contribuindo para o isolamento social e, por vezes, a para a consequente perda de competências sociais.

Enquanto perturbação de personalidade, a perturbação esquizóide é diagnosticada a partir do início da idade adulta, contudo alguma das suas manifestações têm lugar, ainda que de forma menos expressiva, na infância e adolescência, nomeadamente a tendência para o isolamento e desligamento relacional face ao grupo de pares.

Avaliação diferencial e comorbilidade

A organização paranoide da personalidade apresenta características semelhantes a outras perturbações, exigindo assim um diagnóstico diferencial. Entre estas destaca-se a perturbação evitante da personalidade, na qual se verificam comportamentos de isolamento social, no entanto a motivação que gera este comportamento é distinta. Contrariamente ao que se verifica na perturbação paranóide, o isolamento social é gerado pelo medo da rejeição, levando o indivíduo a evitar ambientes sociais, face aos quais haja expectativa de crítica ou ameaça.

No que concerne a perturbações clínicas, apresenta semelhanças com a esquizofrenia, não obstante esta ser também caracterizada pela presença de sintomas psicóticos, não existentes na organização paranoide. Contudo, há autores que defendem que esta pode funcionar como um precursor, ao nível do funcionamento da personalidade, da esquizofrenia desorganizada ou catatónica; ou favorecer a comorbilidade com sintomas psicóticos, em resposta a situações geradoras de stress e dificuldades de adaptação.

Atendendo à retirada do ambiente e relacionamentos sociais, frequentemente o indivíduo recorre ao processo psicoterapêutico na sequência de eventos desorganizadores da sua segurança e conforto internos, como seja, a necessidade de se relacionar socialmente num determinado momento da sua vida. Sendo este evento percebido como stressante e, por vezes repulsivo, a sua experiência ou expectativa da mesma pode contribuir para o desenvolvimento de perturbações de ansiedade.

Palavras-chave: perturbação esquizóide; perturbação da personalidade; isolamento social; embotamento afetivo

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References:

Millon, T., & Grossman, S. (2007). Moderating Severe Personality Disorders. A personalized psychotherapy approach. New Jersey: John Wiley & Sons, Inc.

Millon, T., Grossman, S., Millon, C., Meagher, S., & Ramnath, R. (2004). Personality Disorders in Modern Life. New Jersey: John Wiley & Sons, Inc.

Rodrigues, V., & Gonçalves, L. (2009). Patologia da Personalidade. Teoria, clínica e terapêutica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

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