Pensamento Humano

Introdução

Desde o período histórico delimitado pela filosofia de Aristóteles que o pensamento humano tem sido objecto de estudo tanto por parte de filósofos como psicólogos. Contudo, enquanto tópico de investigação, o pensamento humano dista-se de outras temáticas na medida em que se desconhece uma definição precisa para a manifestação em causa.

 Ou seja, os progressos alcançados no estudo do pensamento humano implicaram naturalmente noções distintas e nem sempre complementares, ou o inverso. Neste conjunto, a mais antiga discussão equipara-se à ideia do pensamento como correspondendo aos ‘conteúdos da consciência.

Tal ponto de observação aglomera na sua órbita figuras ilustres da história da filosofia como Aristóteles, John Locke, George Berkeley, David Hume e John Stuart Mill, considerando em que encorajaram a perspectiva de que a mente se estuda a si própria.

Os postulados sobre o pensamento humano aliados ao senso comum, enraizados na “psicologia popular” da cultura na sua amplitude geral, vão de encontro a uma posição cujo argumento é o seguinte: somos seres cujas decisões e acções são submetidas ao controlo do pensamento consciente, ou seja, atribuímos como causas do nosso comportamento uma incrível variedade de estados mentais conscientes categorizados como “crenças“, “intenções”, “decisões”, etc.

Porém, a concepção moderna do pensamento humano enquadra-se na metodologia dominante das ciências cognitivas, e caracteriza-se por ser funcionalista, isto é, baseia-se na ideia do cérebro como um sistema análogo ao computador que processa os dados recebidos. Daí que o pensamento seja compreendido como um processamento de informação de alto nível, requerido pela resolução dos problemas que se colocam, pelo raciocínio e pela tomada de decisão.

Na abordagem em questão, o pensamento como uma categoria residual dos processos que não desejamos incluir entre os mecanismos responsáveis pela percepção, memória e linguagem. Consequentemente, o papel da consciência amonta a pouca importância para grande parte dos psicólogos e cientistas cognitivos. Ao passo que este prisma sobre o pensamento humano é aceite por alguns filósofos da mente contemporâneos, por outro lado é fortemente disputado por outros. (Searle, 1992.)

A viragem radical que recusou o senso comum da “psicologia popular” e as teorias concebidas por dois milénios de especulação filosófica ocorreram durante o século XX, e é de grande interesse esboçar minimamente essa genealogia recente.

Exposição

A fé na introspecção como método de estudo do pensamento humano entrou progressivamente em declínio devido a inúmeras razões. Quando a psicologia emergiu como uma disciplina separada da filosofia cerca de finais do século XIX, as primeiras escolas apoiaram-se no uso do método introspectivo. Uma destas escolas, sediada na Universidade alemã de Würzburg, produziu resultados surpreendentes (e mesmo místicos).  (Humphrey, 1951.) Aos sujeitos era perguntado para descreverem o pensamento experienciado na realização de simples tarefas, mas frequentemente eram incapazes de identificar qualquer imagem ou outras formas concretas de pensamento. Por vezes os pensamentos estavam presentes mas eram indescritíveis, e por vezes os sujeitos não conseguiam identificar a experiência que mediava o seu comportamento.

As conclusões destes psicólogos foram confirmadas por vários estudos psicológicos modernos nos quais, por exemplo, se demonstrou com relativa facilidade que as atitudes dos indivíduos como a tomada de decisão são controladas por características do meio que escapa à percepção no relatar introspectivo. Ademais, quando questionados para explicarem o seu pensamento, esses indivíduos racionalizavam ou teorizavam sobre os dados, construindo após o evento opiniões elogiadoras do próprio comportamento. ( Evans, 1989.)

À parte das dúvidas suscitadas pelos estudos experimentais sobre a introspecção, a equação da consciência com o pensamento foi desmantelada por dois movimentos fundamentais na história da psicologia: o primeiro foi o movimento psicanalista, no qual a noção do inconsciente foi exacerbadamente promovida; o segundo foi o movimento behaviourista, fundado por J.B. Watosn na década de 20 do século XX, influenciando tremendamente a psicologia experimental da década de 50.

Na década de 60, a psicologia cognitiva surgiu como uma nova abordagem, importando as mais recentes teorias expostas pela linguística, filosofia, inteligência artificial e as neurociências, formando um campo multidisciplinar conhecido como ciências cognitivas.  Neste âmbito, a inteligência é definida como um processo computacional num nível abstracto que se manifesta em sistemas biológicos como o cérebro, e máquinas como o computador. Recorrendo à metáfora do computador e à ideia do pensamento como processamento de informação, a psicologia cognitiva moderna redescobriu a noção de processos internos de pensamento, que se encontrava ausente do movimento behaviourista.

Conclusão

Provavelmente é verdade que as preocupações sobre a racionalidade deslocaram a discussão sobre a consciência enquanto temática filosófica dominante e concernente aos estudos psicológicos do pensamento humano. O problema é que o sucesso da espécie humana sugere que evoluímos para possuirmos uma inteligência que se adapta com grande eficácia, apesar das demonstrações laboratoriais de pensamentos incoerentes. O debate sobre a racionalidade desenvolveu-se desde a década de 80 do século XX, com os filósofos argumentando em grande medida sobre a racionalidade humana, não obstante as evidências psicológicas. Uma linha do argumento racionalista critica os sistemas normativos usados, como a lógica formal ou a teoria das probabilidades, uma vez que assume que estas são medidas inadequadas para o balanço a elaborar sobre a racionalidade humana. Outra linha de argumento ataca as experiências psicológicas como estudos de ilusões cognitivas que apresentam implicações limitadas para os juízos tomados quotidianamente.

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References:

Evans, J. St B.T. (1989) Bias in Human Reasoning: Causes and Consequences, Brighton.

Humphrey, C. (1951) Thinking: An Introduction to its Experimental Psychology, London.

Manktelow, K.I. and Over, D. (eds) (1993) Rationality, London.

Newell, A. and Simon, H.A. (1972) Human Problem Solving, Englewood Cliffs, NJ.

Searle, J. (1992) The Rediscovery of Mind, Cambridge, MA.

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