Logocentrismo

Cunhado por Jacques Derrida na obra Of Grammatology, o logocentrismo refere-se à tendência da civilização ocidental privilegiar o significante linguístico (a palavra falada ou escrita) em detrimento do significado (o que a palavra expressa). Assim, de acordo com Derrida, há uma tendência filosófica específica do Ocidente que impõe hierarquias no discurso, definindo certos conceitos contra alternativas que são subordinadas, e um vício semelhante na semiótica, que valoriza acima de tudo o significante opondo-o ao que é o significado. Para Derrida, o logocentrismo nasce com o alfabeto grego, sendo que este instaura a metafísica grega que é fundadora da própria filosofia e ciência. A era do logos inicia a época das oposições binárias.

Encontra-se no livro Of Grammatology, a problematização sistemática de muito do trabalho semiótico de Ferdinand de Saussure. Em inúmeros excertos, Derrida admite que o trabalho de Saussurre serviu como a pedra de toque nos estudos linguísticos, tendo em conta que Saussurre indicou que o significado não revele indiscutivelmente a natureza do significado – por exemplo, não há nada na natureza de uma mesa que implique que a mesa se chame mesa –, mas que os significados compõem um sistema linguístico de signos que se referem uns aos outros.

Continuando, Derrida concorda que os sistemas linguísticos codificam certos sistemas de valor, sendo que rejeita o modelo diádico de signos proposto por Saussure, uma vez que para Derrida é fútil distinguir entre significado e significante, entre um objeto externo objetivo e o seu sinal linguístico: pelo contrário, os dois interpelam-se. Não obstante, Derrida recusa também a formulação de Saussurre segundo a qual a relação entre o significante e o significado é arbitrária e estática, dado que há uma abertura entre a ideia e aquilo a que a ideia se refere, o que permite a ocorrência do jogo. Depositar toda a confiança no significante como referente perpétuo do mesmo objeto significado é permitir uma maior proeminência ao signo do que é devido, e implica uma centralidade falsa do significante sobre o significado.

Alternativamente, Derrida sugere a categoria dos quase-conceitos, que surgem da necessidade de uma suspensão entre os elementos que compõem os pares de uma oposição, isto é, que resistem à lógica binária que ofusca a linguagem da metafísica. Com este passo, não é a intenção de Derrida sair do âmbito da linguagem, mas sim denunciar a violência da conceptualização e o apagamento da diferença que tal violência implica.

O trabalho sociológico contemporâneo em torno do logocentrismo é escasso e permanece principalmente dentro do debate filosófico sobre a natureza da linguagem. A defesa do logocentrismo por parte de Clive Stroud Drinkwater é uma crítica à desconstrução derridiana, concluindo que esta abordagem assenta numa generalização incorreta da metafísica e nos princípios clássicos da lógica. Para além dos debates estritamente semióticos, o conceito de logocentrismo tem sido aplicado à sociologia da ciência igualmente. Neste contexto a configuração idealizada do laboratório é contrastada com a arena da aplicação prática. O “logocentrismo científico” emerge do privilegiar da data produzida a partir das condições ideias do laboratório, que subsequentemente se tornam num retrato fidedigno da realidade. Os desvios desta representação, quando aplicados na arena da aplicação prática, são considerados como inválidos devido à impossibilidade de controlo absoluto desses elementos desviantes. Assim, no laboratório articula-se a centralidade da realidade científica, apesar das condições que dão azo a essa realidade não serem encontradas no seio da natureza.

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References:

Derrida, J. (1967) Of Grammatology. Trans. G. C. Spivak. Johns Hopkins University Press, Baltimore.

Derrida, J. (1980) Structure, Sign, and Play in the Discourse of the Human Sciences. In: Writing and Difference. Trans. A. Bass. University of Chicago Press, Chicago, pp. 278 94.

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