Fenomenologia

Na filosofia a fenomenologia é entendida como uma ciência puramente descritiva daquilo que surge diante de nós, sem que essa descrição obrigue a teorias ou explicações.

 Johann Heinrich Lambert, na obra Neues Organon (1764) declarou os fenómenos como ilusões. Aos fenómenos Kant opôs o numenal, ou as coisas em si, argumentando que o fenómeno é tudo o que pode ser conhecido. Na Fenomenologia do Espírito (1807), Hegel analisa o argumento kantiano, entre outras posições que defendem o acesso à mente em si.

Contemporaneamente, a fenomenologia pressupõe o método fenomenológico de Husserl, que este introduziu nas Investigações Lógicas (1900-1), e desenvolveu amplamente em Ideias (1913) e trabalhos subsequentes. Muitos estudantes de Husserl deram continuação ao seu legado, e entre eles encontramos Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty. Todavia, com Heidegger e Gadamer, a fenomenologia foi transformada em hermenêutica, sendo igualmente encontrada nos estudos de filósofos como Paul Ricoeur e Emmanuel Lévinas.

Para Husserl, a fenomenologia traduz-se no estudo das ditas perspetivas subjetivas. Na ciência é a objetividade que está em questão, pelo que o estudo empreendido é concebido de modo a minimizar as diferenças entre observadores. A fenomenologia concentra-se no subjetivo, na forma como as estruturas subjetivas constituem o mundo de modo variado, diferindo estas estruturas de acordo com o contexto cultural analisado ou vivenciado.

Na experiência quotidiana, é habitual concebermos as coisas como objetos passivamente registados por nós. No entanto, os impulsos físicos recebidos pelo nosso sistema neuronal são claramente insuficientes para revelarem o que experienciamos. Por exemplo, se virmos um pato à nossa frente, antecipamos as penas; se virmos um coelho, antecipamos o pelo. Esta estrutura é denominada por Husserl como noema, que inclui as antecipações que estão relacionadas com os nossos órgãos percetivos e dizem respeito às relações espácio-temporais entre os objetos experienciados e outros objetos e eventos. Esta estrutura também inclui elementos téticos, que dizem respeito à natureza do ato através do qual experienciamos o objeto, seja este ato uma perceção, a memória ou a imaginação.

O fenomenólogo, ao invés de se concentrar no objeto, concentra-se na estrutura que permite antecipar o objeto, e descreve-o. Esta abordagem diferente consiste no que Husserl designa como redução transcendental, sendo a análise da estrutura a análise fenomenológica.

A redução transcendental permite descobrir três elementos pertencentes à consciência, que acabam por analisados fenomenologicamente: adicionalmente ao noema (que é uma estrutura abstrata que seria instanciada no caso improvável de termos uma experiência repetida em todos os aspetos com determinado objeto, com exatamente as mesmas antecipações), há a noese, que consiste no ato concreto que despoleta o noema, e o ato hilético, espécie de experiência que tipicamente temos quando os órgãos dos nossos sentidos são afetados. A noese e o ato hilético, ao contrário do noema, são processos temporais.

Na fenomenologia, estes três elementos são recorrentemente estudados, sobretudo a estrutura noemática e noética. Husserl avançou com análises detalhadas das estruturas temporais e a forma como são constituídas; das estruturas que são básicas na lógica e na matemática; da intersubjetividade e dos processos através dos quais os humanos constituem um mundo comum.

Os estudos relacionados com os processos de intersubjetividade concentram-se nos processos à luz dos quais experienciamos outros sujeitos como sujeitos que também experienciam, e como adaptamos as nossas antecipações a esses mesmos sujeitos, que também antecipam: assim, o modo como constituímos o mundo não é solipsístico, pois constituir o mundo é partilhá-lo na diversidade da experiência. Deste modo, a noção de objetividade surge, pois experienciamo-nos como confrontados por uma realidade à qual a nossas crenças e antecipações têm que se adaptar.

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References:

Spielberg, H (1981), The Context of the Phenomenological Movement, Dordrecht, Springer+Business Media.

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