Violino

Violino: instrumento de cordas; composição, efeitos sonoros, origem, desenvolvimento e repertório.

O instrumento

O violino é um instrumento de corda friccionada, sendo o mais agudo de uma família de instrumentos semelhantes, que compreende a viola, o violoncelo e o contrabaixo. Com quatro cordas, a sua afinação traduz-se na seguinte sequência: sol 2, ré 3, lá 3 e mi 4; esta “afinação por quintas tem grande interesse acústico, pois faz aparecer imensas ressonâncias por simpatia, tornando o timbre mais cheio” (Henriques, 1998 p.76).

Este instrumento é dos componentes principais de qualquer orquestra, em que se incluem, invariavelmente, dois naipes: os primeiros violinos, que executam a parte mais aguda, e os segundos violinos, responsáveis pela mais grave.

Composição do violino

Construído em madeira, o violino é constituído por uma caixa de ressonância, cuja parte superior se denomina tampo e a inferior de costas ou fundos; as partes laterais, responsáveis pela união das referidas partes, chamam-se ilhargas. No tampo existem duas aberturas características – em forma de ff – que estabelecem o contacto entre o arque vibra no interior da caixa de ressonância e o ar no exterior. Já as duas saliências em forma de c, a meio, permitem a fricção isolada das cordas extremas (sol e mi).

Para fortalecimento da caixa, colocam-se pequenos blocos de madeira nos cantos interiores e tiras de madeira – contra-ilhargas – em redor. Além destes detalhes, existem dois outros elementos que contribuem para a mencionada robustez da caixa: a barra e a alma. “A barra é uma tira de madeira colada longitudinalmente por baixo do tampo, em dois terços do seu comprimento” (Henriques, 1998, p.74), que reforça os sons graves. “A alma é um pequeno cilindro de madeira, mantido por pressão entre o tampo e o fundo. Para além de uma importante função mecânica (impede o tampo de flectir ou rebentar, apesar da pressão de 10 a 12 Kg/cm² exercida pelo cavalete)”, comunica, ainda, “as vibrações das cordas directamente ao fundo” (Henriques, 1998, p.74).

Violino1

As cordas são esticadas ao longo do tampo: são presas no estandarte, assentam no cavalete (colocadas entre os dois ff), estendem-se ao longo do braço, assentam depois na pestana (pequena peça que separa o braço do cravelhame) e, finalmente, são presas nas respectivas cravelhas. O cravelhame termina com uma forma escultórica, normalmente em espiral, de nome voluta. Esta forma, porque reflecte as características do construtor, é tida como a sua assinatura. As cordas são colocadas em vibração por meio de um arco, resistente, com cerca de 150 cerdas, presas no talão, o sítio onde se pega; a extremidade oposta é designada de ponta. Em notação musical, usam-se sinais que indicam se uma nota deve ser executada começando com o arco numa ou outra extremidade. Finalmente, destaca-se o mentonnière, uma peça que se fixa ao violino no local em que o executante encosta o queixo, de modo a prender o violino entre este e o ombro. Foi introduzida no século XX pelo violinista Ludwig Spohr.

Efeitos Sonoros

Surdina: a utilização da surdina (pequena peça de madeira ou metal que se prende no cavalete com o objectivo de bloquear as suas vibrações) resulta num som mais fraco e baço.

Scordatura: este termo designa a afinação fora do comum de um cordofone, destinada a facilitar determinados tipos de passagens difíceis e obter acordes normalmente impossíveis ou mesmo mudanças tímbricas. Muito utilizado na música de alaúde dos séculos XVI e XVII, começou a ser utilizada no século XVIII por violinistas.

Harmónicos: aflorando com o dedo as cordas em pontos específicos é possível obter as notas correspondentes aos harmónicos naturais da corda, provocando uma diferente sonoridade. Também podem ser obtidos artificialmente, “mas calcando a corda com o primeiro dedo (em vez de usar a corda solta) e aflorando-a com um dos restantes” (Henriques, 1998, p.79).

Sul Tasto: obtido tocando com o arco sobre o ponto, o que produz uma sonoridade mais suave, um som com mais fundamental e menos harmónicos.

Sul Ponticello: toca-se o mais perto possível do cavalete, o que exige um excelente domínio técnico do arco, porque a mais pequena variação na sua posição traduz-se por uma grande desigualdade tímbrica. O som obtido é mais agreste, com menos fundamental e muitos harmónicos.

Pizzicato: sob a indicação pizz, beliscam-se as cordas com o dedo, em vez de as friccionar com o arco, que só a volta a ser usado quando aparece a indicação arco.

Col legno: em vez de se tocar com as cordas, usa-se a vara do arco, quer friccionando as cordas, em legato, que percutindo-as. Usa-se sobretudo como efeito orquestral mas oferece o inconveniente de contribuir significativamente para a deterioração dos arcos.

Glissando: corresponde à evolução progressiva da altura de um som entre uma nota e outra, passando por todas as alturas intermédias de forma contínua, e não em escala.

A origem do violino

O violino surgiu na primeira metade do século XVI (Renascimento) mas não deve a sua invenção a nenhum nome particular. É, na verdade, o resultado de um processo lento de desenvolvimento, que combinou elementos dos principais instrumentos de corda friccionada da época, nomeadamente, a viela renascentista, a rabeca e a lira da braccio.

De acordo com o autor Luís Henriques, a história da origem do violino está “inseparavelmente ligada ao pintor italiano Gaudenzio Ferrari (1480-1546), cujos obras atestam a existência do violino, mesmo que em estado primitivo. Para este efeito, o autor destacou as obras com maior interesse documental: a pintura para o altar da igreja de San Cristoforo, em Vercelli, chamada «La Madonna degli Aranci» (1529) (ver detalhe na imagem abaixo); o fresco da cúpula no Santuário de Saronno (1535) e um fresco e várias esculturas, em e perto de Varallo. As diferenças de representação entre o primeiro exemplo e o último dão contas do seu, ainda, processo evolutivo “para aquilo que seria o tipo mais ou menos estandardizado das escolas de Brescia e Carmona. No entanto, pode afirmar-seque por volta de 1530 o violino já existia” (Henriques, 1998 p.91).

La_Madonna_degli_aranci_-_Putti

Escola de Cramona

O “fundador” da escola de Carmona foi Andrea Amati (1530-? antes de 1580), e o seu neto, Nicolo Amati (1596-1580) tornar-se-ia o mais importante luthier da família que definiu a forma clássica do violino. Este último teve vários discípulos importantes, como Andrea Guarneri (1626-1698), Giambattista Roggeri (1666-1696), Francesco Ruggieri (1620-1700) e Paolo Grancinno (1655-1692); mas o mais importante de todos foi, sem dúvida, Antonio Stradivari (1644-1733), o nome ainda hoje mais facilmente associado ao violino. Pensa-se que terá construído mais de 1000 instrumentos (muito provavelmente com auxílio, dado o número em causa), entre os quais 960 violinos, estimando-se que entre 450 a 512 tenha sobrevivido. Muitos dos seus violinos são conhecidos por um nome, como Messias, Saraste, Donzela e Cremonense. Salienta-se, ainda, outro grande expoente da escola de Carmona, Giuseppe Guarneri del Gesù (1698-1744).

Escola de Brescia

A escola de Brescia nasceu com Gasparo da Salò (1540-1609), sendo o seu estilo continuado e aperfeiçoado por Giovampaolo Maggini (1580-1632). “Os instrumentos deste luthier têm as costas por vezes elegantemente ornamentadas, e as suas violas de arco são na opinião de alguns, instrumentos de máxima perfeição” (Henriques, 1998, p.92).

Outras escolas

Fora de Itália, os centros de construção mais relevantes foram o Tirol, cujo principal representante foi Jacob Stainer (1621-1638) e a cidade francesa de Mirecourt.

Distinguem-se em Portugal, já no final do século XVIII e início do século XIX, Joaquim José Galrão, e, no século XIX, A. Sanhudo e J.J. Fonseca. No século XX, destaca-se a família Capela, cuja tradição foi iniciada por Domingos Ferreira Capela (1904-1976), continuada pelo filho António Capela, que também ensinou o seu filho. Os seus instrumentos têm grande projecção nacional e internacional.

Repertório para violino

Séculos XVI e XVII

Até ao final do século XVI existe muita pouca música escrita especificamente para violino; este destinava-se, sobretudo, a tocar música de dança, para qualquer camada da sociedade.
No século XVII, o advento da ópera e da sonata permitiu que o instrumento adquirisse um novo relevo. A título de exemplo, o italiano Claudio Monteverdi incluiu violinos na orquestra da sua ópera «Orfeu»; Arcangelo Corelli tornou-se um dos grandes virtuosos do violino da sua época e Henry Purcell, na Inglaterra, onde a aceitação do violino como instrumento solista foi mais lenta (à semelhança de França) compôs «sonatas a três», imitando estilo italiano.

Barroco

Já no século XVIII, importa salientar Francesco Geminiani (1682-1762), responsável por numerosas obras para violino bem como um tratado sobre a sua execução («A Arte de Tocar Violino», 1751), Giuseppe Tartini (1692-1770), cuja sonata «O Trilo do Diabo» (áudio) apresenta um conjunto complexo de passagens para o violino, Antonio Vivaldi (1678-1741), virtuoso do instrumento e compositor de inúmeros concertos instrumentais também (mas não exclusivamente) para violino e J.S.Bach (1685-1750), que escreveu peças admiráveis para o instrumento, como 3 sonatas e 3 partitas para violino solo, sendo também de realçar a parte de violino principal no «4.º Concerto Brandeburguês».

Primeira Escola de Viena 

Haydn dedicou pouca atenção ao violino. Embora tenha escrito, por exemplo, quatro concertos para violino, nenhum deles se tornou um essencial no repertório do instrumento. O mesmo não se pode dizer de Mozart, que escreveu cinco concertos, e três dos quais se tornaram indispensáveis, nomeadamente, os números 3,4 e 5. Escreveu também numerosas sonatas para piano e violino ao longo da sua vida. As 10 sonatas para de Beethoven para piano e violino adquiriram o mesmo estatuto de “indispensabilidade” apenas referido, sendo que as três primeiras denotam uma influência mozartiana. Já o seu «Concerto para Violino em Ré M» (áudio) inaugurou um novo tipo de concerto sinfónico porque a parte solista não foi escrita com intento virtuosístico mas sim para ser integrada no conceito da obra.

Niccolò Paganini e Giovanni Battista Viotti

No século XVIII existiram, fundamentalmente, duas escolas, a francesa e a italiana. Viotti (1755-1824), um compositor e virtuoso do instrumento, ligou ambas as escolas, e foi importante para a viragem do século, deixando o seu legado à tríade Rode, Baillot e Kreutzer, todos eles professores do Conservatório de Paris em 1800.
Já Paganini (1782-1840), foi o último representante da escola italiana e um dos primeiros instrumentistas do romantismo musical. Mais importante, revolucionou a técnica do violino,  ao ponto de influenciar de modo determinante o virtuosismo do piano e da orquestra perseguidos no Romantismo. A sua influência sobre Liszt foi imensa, mas não se encerrou aí. Os temas dos seus «24 Caprichos para violino solo, op.1» inspiraram grandes obras de Schumann, Brahms e Rachmaninoff, entre numerosos outros.

Século XIX

A sonata para piano e violino foi uma das formas preferidas deste século. Schumann compôs em 1851 duas sonatas de grande maturidade (op.105 e 121). Brahms compôs também três grandes sonatas: n.º 1 em Sol M, op. 78, n.º 2 em Lá m op.100 e n.º 3 em Ré m, op.108. Em França, destacam-se as sonatas de Franck (cuja «Sonata em Lá M» (áudio) )é uma das mais tocadas no repertório violinístico, Fauré, Saint-Saëns e Vincent d’Indy.
No espectro nacionalista, salientam-se as três sonatas de Grieg, op.8, op.13 e op.45, assim como as «Sonatina op.100 em Sol M» e a «Sonata op.57» de Dvorák.

Século XX

No século XX, vários compositores escreveram de modo notável para o instrumento, quer solo, quer acompanhado. Alguns deles foram Debussy, com a «Sonata», uma das suas últimas obras, Bartók, Hindemith, Milhaud, Prokofiev, Ravel, os compositores da Segunda Escola de Viena, Britten, Barber, Stravinsky e Vaughn Williams.

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References:

Henrique, L. (1998). Instrumentos Musicais. Fundação Calouste Gulbenkian.

The Editors of Encyclopaedia Britannica (nd). Violin. Em https://www.britannica.com/editor/The-Editors-of-Encyclopaedia-Britannica/4419

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