Sibelius, Jean

Jean Sibelius (1865-1957) foi um compositor finlandês, frequentemente associado ao nacionalismo, mas também conhecido pelo seu contributo para o desenvolvimento da sinfonia e do poema sinfónico.

Os primeiros anos

Jean Sibelius (originalmente Joahan Julian Christian Sibelius) nasceu no dia 8 de Dezembro de 1865, em Tavastehus, na Finlândia. Na infância, era chamado de Janne pelos seus amigos mas viria a adoptar, mais tarde, o primeiro nome de um tio, Jean.

Começou por aprender piano, aos sete anos, mas foi pelo violino que desenvolveu maior interesse, esperando mesmo tornar-se um virtuoso do instrumento. Começou, também, a compor em criança, mesmo sem formação técnica, escrevendo com nove anos a sua primeira obra, «Rain Drops». Na escola onde estudou, a primeira escola onde só se falava finlandês, apesar de pertencer ao território detido pela Rússia, entrou em contacto com a literatura finlandesa, principalmente com o poema épico «Kalevala» do escritor Elias Lönnrot, que reúne um vasto conjunto de histórias até então passadas oralmente, de cariz mitológico e folclórico. Este poema foi, regularmente, uma fonte de inspiração para Sibelius.

Entrou na Universida de Helsínquia, como aluno de direito, em 1885, frequentando, ao mesmo tempo, cursos especiais de música no Conservatório. No ano seguinte, abandonou os estudos de direito e passou a dedicar-se, inteiramente, à música.

No Conservatório de Helsíquia estudou composição com Martin Wegelius e violino com Hermann Csillang, entre 1886 e 1889. No ano de 1889 foi para Berlim, onde estudou composição com Albert Becker e travou amizade com Ferruccio Busoni, que o encorajou. Nesta cidade teve oportunidade de descobrir a nova música, especialmente a de Richard Strauss. Entre 1890 e 1891 dirigiu-se para Viena, onde estudou composição com Karl Goldmark  e Robert Fuchs.

Sibelius, 1981

Regressou à Finlândia, onde ensinou violino e teoria no Instituto de Música de Helsínquia de 1892-1897. No ano de 1892 casou com Aino Järnefelt, filha do General Alexander Järnefelt, cabeça de uma das famílias mais influentes da época. Viriam a ter seis filhos.

O arranque e estabelecimento da carreira musical

Na capital austro-húngara, esboçou a sua primeira grande obra, a sinfonia coral para solistas, coro masculino e orquestra, «Kullervo, op.7», inspirado no sentimento nacionalista que emergia na Finlândia em protesto contra a dominação russa. Esta obra tem como base diversos episódios mitológicos da «Kalevala». A primeira audição de «Kullervo», no dia 28 de Abril de 1892, em Helsínquia, teve muito sucesso, mas foi abandonada e não mais tocada até à morte do compositor, onde mais tarde se encontraram indicações que Sibelius tinha adicionado posteriormente. Também por esta altura conformou-se à sua carreira de composição, admitindo que tinha começado demasiado tarde a praticar o violino para se tornar um um virtuoso.

No período entre 1893 e 1897, o criador “romântico nacional” escreveu as «4 Lendas Kalevala», de onde se registam, especialmente a «Suite de Lemminkäinen op.22» e «Cisnes de Tuonela», uma espécie de irmão nórdico do «L’aprês-midi d’un faune» de Debussy. Em 1893 compôs, ainda, o poema sinfónico «Em saga, op.9», onde um dos temas foi extraído de um octeto de cordas que escrevera quando estudante. Em 1897, o estado finlandês deu a Sibelius uma pensão anual para lhe permitir que se concentrasse exclusivamente na composição.

Do ano de 1899 são célebres o poema musical «Finlândia, op.26», marcado pelo carácter reivindicativo (Sibelius defendia a autonomia da Finlândia relativamente à Rússia, que só se viria a tornar independente em 1917), e a sua Primeira Sinfonia, que combina o seu estilo original com um romantismo eslavo influenciado por Tchaikovsky. A Segunda Sinfonia (1902), enquanto na forma ainda clássica, contém mais exemplos da forma individual como Sibelius usa pequenos temas para gradualmente construir um maior, da sua tendência para o recurso a ostinatos e da sua predilecção por longas passagens para cordas de carácter atmosférico (muitas vezes inevitavelmente associadas aos ventos finlandeses) e por um agrupamento pouco comum mas eficaz de certos instrumentos, especialmente dos naipes das madeiras.

Finlândia, op.26

No ano de 1903 compôs o célebre «Concerto para violino, op.47», cujo carácter quente do seu andamento intermédio reflecte a sua visita à Itália. Foi revisto em 1905, ano em que Strauss o dirigiu em Berlim. Salientam-se, ainda, a música de cena para «Kuolema, op.44» (1903), da qual foi retirada a famosa «Valsa triste» e a música de cena para «Pelléas et Mélisande, op.46» (1905).

A mudança para Järvenpää

Em 1904, Sibelius instalou-se em Järvenpää, cerca de trinta quilómetros a norte de Helsínquia, numa casa rodeada de árvores, onde iria morar até à sua morte, cerca de meio século mais tarde. A residência de Sibelius em Järvenpää marcou o início de uma nova fase no seu estilo, mais universal, concentrada e clássica que a precedente, e ilustrada, principalmente, pelos poemas sinfónicos «A filha e Pohjola op.49» (1906), «Cavalgada nocturna e nascer do sol op.55» (1907) e, sobretudo, pela sua Terceira Sinfonia (1904-1907), verdadeiro pórtico da grande maturidade do compositor. Foi dedicada a Bantock, um dos seus primeiros fervorosos adeptos ingleses. Sibelius visitou a Inglaterra, pela primeira vez, em 1905.

A casa de Sibelius, em Järvenpää

Foi visitado em Helsínquia, por Mahler, em 1907, onde, numa conversa que ficaria famosa, expressaram as suas posições contrastantes sobre a sinfonia. Para Mahler, esta era “o mundo e devia abarcar tudo”; para Sibelius, os motivos de interesse eram a “lógica profunda que criava e a conexão entre todos os motivos” e a “severidade de estilo”. A Quarta Sinfonia de Sibelius, é, precisamente, a antítese da sinfonia mahleriana: epigramática, austera (sem bloquear a paixão, contudo), sóbria sendo toda a obra bastante concentrada. O seu carácter introspectivo, à semelhança do quarteto de cordas «Voces Intimae, op.56», deve-se, possivelmente, à doença de garganta que o afligia e que temia ser cancro.

Visitou os EUA em 1914, como maestro, no Festival Nortfolk, no Connecticut, apresentando um novo poema sinfónico, «As Oceânides, op.73». Regressou à Finlândia onde, devido à I Guerra, permaneceu isolado, mas compôs a Quinta Sinfonia, uma das suas obras mais conhecidas, que resume em si as características próprias de Sibelius e possui uma grande força emotiva.

Últimos anos e morte

Depois da guerra, voltou a visitar Londres em 1921 e 1923, e completou a sua Sexta Sinfonia, mais difícil de classificar de toda a série, com harmonias modais e um certo sabor derivado da sua admiração pela Palestina. Em 1827, completou a Sétima, e última, Sinfonia, condensada num só andamento, mas com os quatro andamentos convencionais facilmente reconhecíveis.

Em 1926 compôs o poema sinfónico sobre a floresta «Tapiola, op.112», que pode ser considerada a sua última grande obra. Diz-se que a «Tapiola» está para Sibelius como «La mer» para Debussy. Escreveu, depois, alguns coros masculinos, peças para violino e piano e duas peças para órgão, já em 1931. Depois disso, apesar de ter afirmado ter escrito e destruído uma 8.º Sinfonia, não publicou uma única nota durante os restantes 26 anos da sua vida. Faleceu a 20 de Setembro de 1957, em Järvenpää.

Sibelius, 1939

Legado

Apesar deste silêncio, permaneceu uma figura dominante não só no seu país, mas também na Inglaterra e nos EUA. O mesmo não aconteceu na França e na Alemanha. Durante a década de 30 foi visto, na Inglaterra, como a única figura de mérito na música contemporânea, o que fez com que a Inglaterra ignorasse Schönberg, Berg, Webern e uma grande parte de Stravinsky, até que, pela altura da sua morte, a situação foi revertida. A sua reputação sofreu um colapso exagerado mas uma visão mais equilibrada do seu estilo original e rico, especialmente a nível sinfónico, prevalece hoje em dia. Não obstante, a beleza das suas obras corais, canções e música de cena é, também, notável.

A sua imagem como uma figura ascética e gélida nem sequer é coincidente com os factos da sua vida, nem a sua música é a arte fria e rígida que alguns autores retrataram.

O seu lugar no desenvolvimento da sinfonia está assegurado, especialmente se for visto como um complemento de Mahler e dos últimos românticos, mais do que a respectiva antítese. Afinal, o compositor desde cedo se fascinou com Liszt, Berlioz e mesmo Beethoven (no limbo entre o classicismo e o romantismo), de quem admirava não só a música como o próprio homem, “para mim ele é uma revelação. É um titã”.

Muito influenciado, também, pelos russos, não conseguiu exorcizar o espectro do romantismo, tornando-se num artista romântico disciplinado: as suas obras maiores não desdenham as imagens mais evocadoras ou os sentimentos pessoais mais intensos, apresenta-os sim com uma precisão microscópica, com extraordinária objectividade, colocando-os na perspectiva de uma realidade mais vasta, também ela presente. É este aspecto da sua obra que deve ser considerado, apesar da tendência leviana de alguns comentários que o restringem ao nacionalismo. Sibelius deve ser olhado além do carácter nacionalista, que marcou muitas das suas obras, porque foi um dos compositores que mais influenciou o desenvolvimento da sinfonia e do poema sinfónico.

Tabela síntese sobre Sibelius

Nascimento 8 de Dezembro de 1865, Tavastehus, Finlândia
Morte 20 de Setembro de 1957,  Järvenpää, Finlândia
Nacionalidade Finlandês
Ocupação Compositor
Principais obras «Kullervo, op. 7»; «Finlândia, op. 26»; «Concerto para violino, op.47»; «Voces Intimae, op.56»; «As Oceânides, op.73»;  «Tapiola, op.112»; 7 Sinfonias
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References:

Kennedy, M. (1994). Dicionário Oxford de Música. Publicações Dom Quixote.

Massin, J. & Massin, B. (1983). História da Música Ocidental. Editora Nova Fronteira, S.A: Rio de Janeiro.

The Editors of Encyclopædia Britannica (2014). Jean Sibelius. Em http://www.britannica.com/biography/Jean-Sibelius

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