Lopes-Graça, Fernando

Biografia do compositor, pianista, professor e crítico musical Fernando Lopes-Graça (1906-1994), cuja obra extensa se destaca pelo recurso à tradição da música popular bem como a textos de grandes poetas portugueses.

Nascimento 17 e Dezembro de 1906, Tomar, Portugal
Morte 27 de Novembro de 1994, Cascais, Portugal
Ocupação Compositor, pianista, professor e cronista musical
Principais obras «La Fièvre du Temps»; «Concerto para piano e orquestra n.º1»; «História Trágico-Marítima»; «Sinfonia per orchestra»; «Sonata para piano n.º3»; «Canções Heróicas»; As mãos e os frutos»; «Canto de Amor e de Morte»; «Sonata para piano n.º5»; «Quarteto de cordas n.º1»; «Concerto da camera col violoncelo obbligato»; «Requiem para as vítimas do fascismo em Portugal»; «Sete predicações de “Os Lusíadas”»; «Dançares»; «Dez Novos Sonetos de Camões»M «Aquela nuvem e outras»

Primeiros anos

Fernando Lopes-Graça nasceu no dia 17 de Dezembro de 1906, em Tomar. Começou a trabalhar aos 14 de anos de idade como pianista no Cine-Teatro de Tomar e prosseguiu estudos de música no Conservatório Nacional de Lisboa entre 1923 e 1931. Nesta instituição estudou piano com  Adriano Merea e José Viana da Mota, composição com Tomás Borba e ciências musicais com Luís Freitas Branco.

As primeiras obras do seu repertório foram apresentadas em Lisboa em concertos organizados com outros colegas do Conservatório, na mesma altura em que iniciou o trabalho de cronista musical.

Em 1932, começou a ensinar na Academia de Música de Coimbra, cidade onde permaneceu até 1936. Já em 1931 tinha sido detido por motivos políticos e o mesmo voltou a suceder em 1936, quando foi enviado para Caxias. O músico foi proíbido de leccionar em instituições públicas e, mais tarde, privadas, e não lhe foi permitido usufruir de uma bolsa que ganhou para estudar no estrangeiro.

Este primeiro período de Lopes-Graça é, normalmente, qualificado como modernista, revelando a influência de compositores como Schönberg e Hindemith. Nas suas primeiras obras destacam-se, ainda, um estudo da prosódia da língua portuguesa, manifestado nas suas canções de poetas como Adolfo Casais Monteiro, José Régio ou Fernando Pessoa.

Paris

Fernando Lopes-Graça instalou-se, por conta própria, em Paris, em 1937, depois de ser libertado. Frequentou o curso de musicologia da Sorbonne, assistindo às aulas de Paul-Marie Masson, e contactou com o compositor Charles Koechlin.

Aqui, compôs várias obras para piano, a música para o bailado «La Fièvre du Temps» e realizou as primeiras harmonizações para voz e piano de canções tradicionais portuguesas. O carácter nacionalista que começou a expressar nas suas obras revela a influência de Bela Bartók, de Manuel de Falla e dos escritos de Koechlin.

O regresso a Lisboa

O compositor regressou a Lisboa em 1939, retomando a sua actividade como professor na Academia de Amadores de Música e as suas colaborações com as publicações periódicas Seara Nova e Diabo, enquanto crítico musical e teatral. Participou, com Bento de Jesus Caraça, na organização da Biblioteca Cosmos onde, além de editar selecções dos seus artigos jornalísticos, se dedicou à difusão de diversos assuntos de carácter musical, revelando fortemente a sua vertente pedagógica. Lopes-Graça fundou, também, a sociedade Sonata que, entre 1942 e 1960, promoveu a apresentação de música do século XX.

A sua primeira grande composição desta altura foi o «Concerto para piano e orquestra n.º1», que recebeu o primeiro prémio de composição pelo Círculo de Cultura Musical em 1940. Recebeu a mesma distinção em 1942, com a cantata «História Trágico-Marítima» sobre textos de Miguel Torga, em 1944, com a «Sinfonia per orchestra» e, em 1952, com a «Sonata para piano n.º3».

Tornou-se militante do PCP nos anos 40 e juntou-se ao Movimento de Unidade Democrática em 1945. No âmbito das actividades do movimento, surgiu o Coro do Grupo Dramático Lisbonense, que antecedeu o Coro da Academia de Amadores de Música, fundado em 1950, e renomeado Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música após a sua morte.

Data, também, de 1945 o início da composição das «Canções Heróicas», canções de intervenção que Lopes-Graça continuou a compor até 1974, (e mesmo anos posteriores,) apesar da proibição que pesava sobre a sua execução pública, e o início da colaboração com a revista Vértice. Nesta revista escreveu quatro artigos que explicavam as suas atitudes estéticas e políticas: «Necessidade e capricho da música contemporânea» (1945), «Sobre o conceito de popular na música» (1947), «O valor da tradição nas culturas musicais» e «Valor estético, pedagógico e patriótico da canção popular portuguesa» (ambos de 1949).

A repressão dos anos 50

A repressão por parte do regime Salazarista acentuou-se nos anos 50 e, em 1954, foi proibido de dar aulas em instituições privadas, deixando de leccionar, assim, na Academia de Amadores de Música. Além disto, as orquestras nacionais deixaram de poder interpretar as suas obras.

Ainda assim, conseguiu manter a associação com a instituição através da revista Gazeta Musical (1950-1957), fundada por ele e por João José Cochofel, da edição do «Dicionário de Música» (1954-1958), e da direcção musical do Coro da Academia de Amadores de Música.

Fernando Lopes-Graça

No final dos anos 50 encontrou-se, pela primeira vez pessoalmente, com Michel Giacometti, e deram início a uma colaboração que se manteria durante décadas. O primeiro trabalho conjunto nasceu em 1960, com a edição do primeiro volume discográfico da colecção «Antologia da Música Regional Portuguesa» dedicado à região de Trás-os-Montes. Em 1981 editaram no Círculo de Leitores o «Cancioneiro Popular Português».

O final dos anos 50 marcou, também, uma nova orientação no seu estilo, que nunca abandonou completamente as referências explícitas à canção tradicional, mas passou a explorar com mais intensidade o ritmo e a harmonia. Alguns exemplos desta fase são «As mãos e os frutos» (1959), sobre poemas de Eugénio Andrade», o quinteto com piano «Canto de Amor e de Morte» (1961), a «Sonata para piano n.º5» (1977), «Quarteto de cordas n.º1» (1965), vencedor do prémio de composição Rainier III do Mónaco ou o «Concerto da camera col violoncelo obbligato», encomenda de Mstislav Rostropovich.

O fim do Estado Novo e últimos anos

A Revolução de Abril trouxe a Lopes-Graça o reconhecimento oficial da sua importância para a cultura portuguesa, através de várias homenagens e encomendas estatais. Ao longo dos anos 70 e 80 os seus livros foram reeditados pela Editorial Caminho e gravou um número considerável de discos.

Até à sua morte compôs diversas obras, entre as quais duas sonatas para piano e um quarteto, o «Requiem para as vítimas do fascismo em Portugal» (1979), as «Sete predicações de “Os Lusíadas”» (1980), o bailado «Dançares», uma sinfonia para orquestra clássica e muitas produções para voz e piano (por  exemplo, os «Dez Novos Sonetos de Camões» «Aquela nuvem e outras» (com base e poemas infantis de Eugénio de Andrade), e canções sobre textos de Fernando Pessoa e José Saramago. Nesta última fase é possível encontrar no seu repertório uma faceta neoclássica para formações instrumentais que não tinham feito parte do seu repertório, até então.

Fernando Lopes-Graça faleceu no dia 27 de Novembro de 1994, em Parede, Cascais. O seu espólio foi doado à Câmara Municipal de Cascais e a casa onde nasceu, em Tomar, alberga um museu em sua homenagem.

Legado musical de Lopes-Graça

A recolha e reinterpretação da música popular portuguesa foram fundamentais para o seu trabalho criativo, facto evidenciado tanto pelas suas obras para piano e voz como nas suas obras instrumentais. A sua ligação à língua e culturas portuguesas exprimiu-se, também, na composição de canções a partir de textos de grades poetas portugueses, como Fernando Pessoa, Luís de Camões e Eugénio de Andrade.

Em certo sentido, Lopes-Graça definiu o conceito de música portuguesa como uma fórmula que exprime uma relação entre a estética, a expressão cultural e filosófica, alavancada na tradição musical popular, com o objectivo de oferecer um carácter universal à criação artística nacional.

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References:

Cascudo, T. (nd). Fernando Lopes-Graça. Em http://cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/fernando-lopes-graca.html#.V2HZ6xJCzES

Biografia Fernando Lopes-Graça. Em http://mmp.cm-cascais.pt/museumusica/flg/flg/

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