Budismo

Apresentação do Budismo

O Budismo é um sistema religioso fundado na Índia no séc. VI a.C. por Siddattha (ou Siddharta), mais conhecido como Shakyamuni (expresão que em sânscrito significa ‘sábio do clã de Shakya’, isto é, o clã de Buda), Gautama ou o Buda – o Iluminado.

Nascido cerca de 560 a.C., Gautama era de linhagem nobre. Aos 29 anos abandonou o conforto da vida doméstica e partiu em busca de iluminação espiritual. Tentou, primeiro, os diversos métodos de disciplina espiritual praticados então mas, nem a meditação ioga nem a automortificação e o jejum rigoroso lhe concederam o que procurava. Abandonando o ascetismo, chegou, no decorrer da sua peregrinação, aos 36 anos de idade, a um lugar chamado Urevela, nas margens de um rio, onde descansou sob uma árvore – a célebre Bodhi (Árvore Bo, ou Árvore da Iluminação) Aqui, Buda atingiu a paz do Nirvana. A Árvore de Buda sobreviveu e foi venerada até 1876, altura em que foi destruída por uma tempestade, embora um rebento exista ainda hoje no Sri Lanka. O resto da sua vida, Gautama passou-o em pregação itinerante e a ensinar. Morreu por volta de 483 a.C.

No decurso da sua missão, fez muitas conversões. Os cinco primeiros convertidos tornaram-se os Arahats ou Dignos, que se haviam libertado dos vínculos da paixão e alcançaram o Nirvana – beatitude e libertação do ciclo da reencarnação. Seguiram-se outros convertidos, suficientemente numerosos para formar uma comunidade (Sangha) que passava o tempo a estudar a doutrina sagrada, a ensinar e a pedir. O mais devotado dos discípulos foi Ananda, cuja tarefa especial consistia em cuidar da pessoa do seu senhor.

Gautama não foi um revolucionário religioso. Não invectivou contra os deuses do seu tempo nem, contudo, os aprovou. Como mortais, afirmou, estão sujeitos ao Karma, o ciclo da reencarnação. Esta visão a muitos sugeriu erroneamente o ateísmo. Mas a preocupação de Gautama não era a especulação; a sua missão era prática – ensinar as Quatro Verdade Nobres: a Existência da Dor; a Causa da Dor; a Cessação da Dor e; o Nobre Caminho das Oito Vias. A experiência mostra a existência de dor e a sua causa: desejo, ânsia, prazer. A cessação surge apenas com o abandono do desejo e a disciplina atingida no Caminho das Oito Vias: Visão Correta, Resolução Correta, Linguagem Correta, Atividade Correta, Entusiasmo Correto, Esforço Correto, Atenção Correta e Êxtase Correto. Ou seja, iluminação, moralidade prática e elevação do espírito visando, por último, a êxtase.

Após a sua morte, o corpo de gautama foi cremado, segundo os costumes da época, e as cinzas foram conservadas como relíquias. Um dos seus dentes, colocado num relicário no famoso Templo do Dente, em Kandi, Sri Lanka, é venerado como sendo uma dessas relíquias.

As escrituras budistas mais importantes (que não constituem uma base para uma biografia contínua de Gautama) foram escritas em idioma pali e remontam a originais que datam do séc. I a.C.

Com um texto cerca de duas vezes mais extenso que o da Bíblia, consistem, essencialmente, em regras monásticas e na sua análise e em sermões; a mais conhecida de todas elas, o Darmapada, ou Caminho da Virtude, é uma colectânea de poemas. As últimas escrituras sânscritas recolhem os elementos miraculosos da tradição.

A doutrina (Dharma) assenta sobre um pessimismo, ao qual o Mundo se encontra abandonado. Uma reunião Budista inicia-se com a récita da fórmula: Procuro o Buda como refúgio; Procuro o Dharma como refúgio; Procuro o Sangha como refúgio. Esta fórmula pode ser considerada como o credo budista. O Buda, o Dharma e o Sangha são três jóias cuja posse pela fé é o distintivo e a alegria do crente. Dharma significa ‘o que é estabelecido ou consolidado’ e pode incluir os costumes, a lei ou o dever e a doutrina da religião. Foi este o credo explicado repetidamente por Gautama aos seus seguidores.

Uma característica do ensinamento budista clássico é a sua negação do eu. Todas as coisas mudam e não existe nenhum ego que subsista, apesar da mudança como ensinavam os brâmanes. Apesar disso, o homem deve libertar-se da escravização ao seu ser empírico – o seu corpo, os seus sentimentos, as suas ideias, mesmo a sua própria consciência.

A beatitude dos budistas é o Nirvana (que textualmente significa saída, extinção). Mas o Nirvana não é aniquilação. Pelo contrário, significa coisa nenhuma, isto é, uma atividade que não é motivada em direção ao definido, ao específico ou concreto. Pode atingir-se o Nirvana e contudo permanecer-se no Mundo, conduzindo os outros à iluminação. A bem-aventurança reside no total desprendimento de si próprio.

Contudo, o budismo, apesar de todo o niilismo que parece existir nas suas atitudes, é uma forma de religião altamente positiva e institucionalizada. Essencial para o seu modo de vida é o Sangha, a ordem de monges que tem tido uma existência contínua desde o tempo de Gautama. Os religiosos budistas vivem em comunidades. O seu hábito é uma túnica comprida, cor de açafrão, e o símbolo da sua vocação mendicante é uma taça de pedinte. A princípio, as suas regras de vida eram bastante simples, mas tornaram-se mais complexas com o decorrer do tempo. O budismo não impõe necessariamente votos vitalícios; assim, na Birmânia, actualmente é hábito um jovem entrar para o mosteiro durante algum tempo, como parte da sua educação.

Ao contrário do monaquismo cristão, o monaquismo budista tem sido quase exclusivamente uma vocação masculina. A disciplina imposta pela regra é muito rigorosa e assenta numa moralidade austera. Proíbe em absoluto matar, roubar, mentir e qualque concessão sexual. Proíbe igualmente os intoxicantes, o excesso de alimentos, a dança, a música, os espetáculos teatrais e todos os adornos pessoais. O monge dorme numa cama estreita, ao nível do solo. Pedir é proibido, embora no princípio essa prática fosse considerada um incentivo à caridade; os donativos em dinheiro devem ser recusados.

Existem atualmente dois tipos diferentes de budismo: Hinayana (Pequeno Veículo), ou budismo meridional (Sri Lanka, Birmânia, Tailandia; Camboja, Laos), e Mahayana (Grande Veículo), ou budismo setentrional (China, Tibete, Coreia, Japão). O primeiro é profundamente pessimista, consciente sobretudo do peso do sofrimento humano; está, portanto, mais próximo do budismo clássico. Ensina que o indivíduo deve encontrar a sua própria salvação e não procurar que os outros o façam por si. Mahayana é mais optimista; exprime a nota mais positiva de que é necessário tentar salvar os outros.

Todos os discípulos se devem treinar para se tornarem um Bodhisattva, pois o Grande Veículo da Verdade, ao contrário do Pequeno Veículo da Verdade, coloca a redenção ao alcance de todos. Apesar disso, o Grande Veículo da Verdade não oferece aos seus adeptos nenhum deus, mas um absoluto impessoal, em cujo ser inefável o verdadeiro iluminado eventualmente se perde, ou se encontra. Esta severa doutrina budista provou ser demasiado austera para uma religião popular. Assim, o budismo Mahayana praticamente deificou o Buda como salvador divino e mantem a esperança numa imortalidade pessoal, prega uma moralidade altruísta e salienta a eficácia da oração. Nas suas formas menos auteras, admite a existência de uma gama mais vasta de divindades: atribui-se um lugar a Maya, a deusa rainha-mãe, assim como aos numerosos bodhisattvas quase divinos. O Nirvana é imaginado como o céu.

Na China, o budismo foi fortemente influenciado pelo tauismo e deu origem a numerosas seitas. Uma delas, a seita da Terra Pura, teve uma grande aceitação popular com a sua doutrina da Terra Pura do Êxtase, presidida pelo Buda Amitabha, o clemente Pai do Céu, que clama sempre pela fé e devoção dos homens. A seu lado encontra-se a virgem deusa Kuanyin, alvo de orações fervorosas.

No Tibete, o budismo foi, até há pouco tempo, uma teocracia dirigida pelos lamas ou monges, que criaram um dos sistemas religiosos práticos mais complexos do Mundo, chefiado pelo Dalai Lama.

O budismo tornou-se muito conhecido no Japão sob a forma da seita Zen. Zen é uma técnica de meditação; segundo ela, a iluminação surge repentina e intuitivamente, e não em consequência de prolongado esforço intelectual. O homem não tem de lutar, mas apenas compreender a realidade espiritual do mundo em que realmente vive. A meditação alterna com o exercício físico ou com o trabalho manual, como parte do autodomínio. O jui-jitsu é muito praticado. A doutrina Zen exerceu uma forte atração sobre a classe militar medieval japonesa, inspirando o seu código de cavalaria, ou Bushido.

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