Abadia

A Abadia é uma comunidade monástica cristã que atingiu o seu apogeu no decurso da época medieval, assim como a restante actividade cristã com o fim desta época entra em gradual declínio com os Estados e Reinos a assumiram vários papéis desempenhados por esta entidade.

A Abadia como comunidade cristã tinha a autorização de fixação definida pelo Vaticano. Na maioria dos casos era dirigida por um abade, em casos mais pontuais era orientada por uma abadessa.

Com a queda do Império Romano e caos resultante do vácuo de poder que emergiu na Europa Central e Ocidental, a religião assente na crescente conversão ao cristianismo dos povos bárbaros, assumia-se no decorrer da Alta Idade Média como pólo económico, cultural e político, assumindo em larga medida o papel que a Roma imperial tinha.

As abadias instalaram-se um pouco por toda a Europa justamente neste contexto de fixação do poder Católico do Bispo de Roma. Numa clara divisão entre a antiga e nova Roma, parte das abadias estavam sobre a alçada directa da Santa Sé, outra parte sobre a autoridade directa das dioceses. As dioceses eram resquícios da divisão administrativa implementada pelo Império Romano adaptadas à estruturação territorial cristã.

Pela prevalência cultural e acima de tudo económica que gradualmente as abadias iam detendo, acabavam em não raras ocasiões por originar uma fixação populacional na sua envolvência, muito assente no regime económico feudal da época medieval. Estas populações trabalhavam as terras, cuidavam dos animais e produziam bens essenciais para a vida na época como a cera por exemplo, essencial para o fabrico de velas.

A Abadia e outras comunidades cristãs como mosteiros ou conventos eram o centro cultural da Europa Medieval, num tempo em que a generalidade da população era analfabeta, inclusivamente a nobreza e muitos monarcas, o clero detinha o poder da escrita. Era de longe a classe social mais instruída e alfabetizada, daí a prevalência desta classe sobre qualquer outra. O registo populacional, muitas vezes os registos financeiros de um reino, a aplicação de sanções judiciais e interpretação da lei, a leitura da Bíblia que assumiu um papel central na vida quotidiana da sociedade medieval e a preservação de textos e livros antigos estavam assentes naquilo que o clero pretendia ou não. A Abadia assumiu um papel fundamental em todas estas acções, quer no campo educacional na região onde inseria-se, quer no campo de preservação, e infelizmente em muitos casos de adulteração de textos antigos.

Como associação cristã, as funções da Abadia estendiam-se ao cuidar dos doentes, eram nas comunidades monásticas cristãs que eram prestados os cuidados médicos e auxilio aos mais pobres com a criação de alojamentos designados como albergarias. Estes alojamentos também acolhiam viajantes e cristãos em peregrinação.

A Abadia e restantes comunidades monásticas evoluíram a partir dos ermitas que surgiram durante o cristianismo primitivo. O ermita isolava-se propositadamente numa região remota, onde pudesse levar uma vida casta longe das tentações da urbe. Produzia os seus próprios alimentos, o excedente alimentar era entregue aos pobres, quando mais isolado e recôndito fosse o local de isolamento do ermita, mais adoração e seguidores tinha.

Muitos destes ermitas ao terminarem o período de isolamento que podia ascender a largos anos, e em casos mais extremos a vida toda, ao estabeleceram-se em determinado sitio, os seguidores por acreditarem na santidade do ermita estabeleciam residência em torno deste. Ao longo dos séculos estas comunidades organizaram-se e estiveram na génese da vida monástica cristã e na criação de ordens religiosas.

Essencialmente no decurso do século V e VI d. C. os mosteiros e abadias começam a surgir um pouco por toda a Europa, alguns sem regulamentação o que levou a Santa Sé a decretar que apenas ela e os bispos locais representantes da sua autoridade podiam permitir a criação de comunidades e ordens monásticas.

Com a evolução desta comunidade monástica uma Abadia geralmente apresentava as seguintes infraestruturas, cozinha, oficinas, zona para cuidados médicos, albergaria, escola, uma Igreja, um celeiro e um pátio.

O declínio das Abadias esteve intrinsecamente associado com a perda de influência do cristianismo na Europa. Esta perda de influência esteve relacionada com as transformações económicas, sociais e politicas ocorridas no Velho Continente com o término da Época Medieval.

A descoberto das Américas e de novas rotas comerciais com o Oriente, levaram ao surgimento da globalização numa escala nunca antes vista, colocaram o aspecto económico no seio da vida quotidiano em detrimento do religioso, a crescente alfabetização das sociedades e acima de tudo da nobreza e burguesia, as transformações politicas que inicialmente retiraram grande parte do poder ao Vaticano, os Reis deixaram de estar subordinados à autoridade papal, o poder régio era atribuído directamente por Deus mais tarde com a revolução francesa clero e estado foram completamente separados, as cisões entre os cristãos com a reforma protestante, foram alguns dos factores que contribuíram para o declínio da vida religiosa e consequentemente das abadias. Os estados ou Reinos assumiram gradualmente o papel desempenhado pelas comunidades monásticas, como a educação, a saúde e cuidados aos mais desfavorecidos.

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References:

LE GOFF, Jacques; A Civilização do Ocidente Medieval, Editorial Estampa, 1984

BANNIARD, Michel ; A Génese Cultural da Europa (Séculos V-VIII), Terramar, 1995

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