Literacia

Em meados da década de 60 do século XX, o lugar e o significado do conceito de literacia encontravam-se assegurados nas ciências sociais.

Em meados da década de 60 do século XX, o lugar e o significado do conceito de literacia encontravam-se assegurados nas ciências sociais. Intimamente unida à síntese liberal e pós-iluminista da teoria da modernidade, a literacia pressupunha-se como uma variável central entre o complexo de factores que compunham os indivíduos e as sociedades modernas, desenvolvidas ou em desenvolvimento, que assim se destacavam de outros contextos menos desenvolvidos ou desfavoráveis. De facto, o conceito de literacia era tipicamente uma variável independente e não um factor dependente.

O suporte para este conjunto de proposições baseava-se, por um lado, numa matriz de expectativas do senso comum, como a visão da natureza do desenvolvimento histórico enquanto forma linear em rumo ao progresso irrefutável, e, por outro lado, na correlação de agregados ecológicos num plano macro que associavam o grau de literacia com os indicadores de desenvolvimento social, desde a taxa de fertilidade ao desenvolvimento económico.

Embora a literacia em si fosse vagamente definida, o positivismo e o funcionalismo difundidos reforçaram a sua proeminência em inúmeras formulações. Apesar de tomados como garantidos estes pressupostos, no entanto careciam de estudos empíricos e críticos, e as questões importantes eram mínimas: a expectativa da literacia contribuir para o desenvolvimento social e económico, a democratização política e cidadania activa, captura de oportunidades; eis as orientações dominantes. Como tal, a promoção da literacia foi um elemento central para o avanço de áreas subdesenvolvidas, empregue sobretudo por cientistas sociais norte-americanos e europeus, governos e fundações.

Tal compreensão da literacia deixou de ser hegemónica. Aliás, nenhuma teoria central governa as expectativas fomentadas sobre o papel e significado da literacia, e a própria natureza do conceito tornou-se problemática, suscitando contenção e uma crescente atenção crítica.

Fontes diversas explicam esta transformação: a descoberta dos limites e lacunas da teoria da modernidade e a devida síntese teórica em que se baseia; maior sensibilidade para com as diferentes expressões de literacia e educação (termos que não são equivalentes); o reconhecimento da natureza problemática da literacia, e as dificuldades empíricas respectivas. Por exemplo, as rápidas transformações resultantes das tecnologias de comunicação, especialmente as formas não alfabéticas (contrastando com os pilares tradicionais da literacia), têm levantado questões sobre o “futuro” e o “declínio” da literacia e das fontes impressas, ao mesmo tempo estimulando questões sobre a definição do conceito.

Entre as principais investigações críticas contemporâneas que abordam a literacia, destaca-se a emergente psicologia social da literacia. Scribner e Cole documentaram os limites da literacia e os pressupostos teóricos que a ligam universalmente a expressões superiores de pensamento e práxis, sublinhando a literacia enquanto determinada pela prática e contexto, e consequentemente determinante. Na Antropologia publicaram-se etnografias de diversas literacias em uso e sem uso.

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References:

Scribner, S. and Cole, M. (1981) The Psychology of Literacy, Cambridge, MA.

Stanley, M. (1978) The Technological Conscience, Glencoe, IL.

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