Visão

Introdução

No processo de obtenção do conhecimento, a percepção é uma componente fundamental, sendo que oitenta porcento desta captura se consolida pela visão. Como tal, é uma habilidade, e não simplesmente uma internalização passiva dos estímulos externos. (E.J.Gibson, 1988) Entenda-se então, que um organismo que percepciona é sobretudo comparável a um agente cartografando o meio e não tanto a uma mesma entidade usando uma máquina fotográfica que foca a lente numa imagem.

A investigação inicial em torno da percepção começou com a especulação filosófica, quer dizer, com o questionamento do papel dos sentidos na aquisição do conhecimento. Somente à cerca de sensivelmente um século e meio, é que o estudo científico e experimental desta temática concentrou maior atenção e investigação. (Boring, 1950)

Nativismo e Empirismo

Dois temas derivados da tradição filosófica predominante dominaram a pesquisa inicial centrada na visão. O empirismo, que começou com o pensamento dos filósofos do século XVII e XVIII, mormente John Locke, George Berkeley, e David Hume, atestou que toda a compreensão se baseia nas sensações elementares, que são os pilares constituintes do conhecimento humano. Por contraste, a posição nativista, embebida no racionalismo do filósofo francês René Descartes, asseverou que o verdadeiro conhecimento deve necessariamente ser sustentado pelas ideias claras e distintas, e na capacidade inata de ordenar e refinar as mensagens dos sentidos.

Tais perspectivas contrastantes ecoam ainda na actividade teórica e prática dos psicólogos modernos. Contudo, muito dificilmente encontraremos apoiantes das concepções acima apresentadas, uma vez que correntemente se investigam os modos assumidos na interacção entre os processos inatos e o campo da experiência.

Fisiologia do Sistema Visual

O sistema nervoso central é constituído por variadas espécies de células especializadas, ou neurónios. Os neurónios na retina ocular recebem a luz, gerando sinais neuronais que são transmitidos através de inúmeros trajectos à porção posterior do cérebro. Deste modo, os alicerces anatómico e fisiológicos para a visão são extremamente complexos e delicados, e somente desde a década de 60 do século XX se descobriu detalhadamente como se consolida este mecanismo.

Os trabalhos de David Hubel e Torsten Wiesel, suportados cientificamente pela investigação do funcionamento de neurónios singulares do córtex cerebral de um gato,  inovaram profundamente o conhecimento acerca dos instrumentos em jogo na visão, posto que descobriram que a função neuronal individual na visão não é nenhum quebra-cabeças em particular. Previamente a tal divulgação, era amplamente aceite que as ligações entre os neurónios no nascimento eram essencialmente aleatórias, e que os dados da experiência “afinariam” o sistema em causa para que este lidasse adequadamente com a informação fornecida pelas sensações, o que no fundo remete para o empirismo. (Hebb, 1949)

Hubel e Wiesel demonstraram que grande parte dos neurónios no sistema visual primário do cérebro especializaram-se na resposta a características específicas do meio envolvente, e que tal se inicia logo à nascença. Por exemplo, existem células que respondem a pequenas linhas horizontais no centro do campo visual, enquanto outras células dão predilecção a linhas verticais ou diagonais noutras posições. O ponto central é que todas as células possuem preferências definitivas.

Consequentemente, as diferentes qualidades sensitivas indissociáveis do contorno, movimento, cor e profundidade, são processadas em canais anatomicamente distintos que, inclusive, possuem mapas separados em diferentes secções do córtex cerebral. (Maunsell e Newsome, 1987)

Percepção Espacial e Objectiva

A característica espacial da visão é primeiramente registada na formação das imagens nítidas pertencentes ao panorama visual, que são captadas pela retina: ou seja, as imagens retinianas. O tamanho da imagem retiniana depende da distãncia entre o olho e o objecto, mas o tamanho percepcionado não varia assim tão independentemente. Por exemplo, um cão não diminui subitamente de tamanho consoante se afasta de um indivíduo.

Esta discrepância entre a expectativa que a imagem retiniana suscita no sujeito, e a aparência real disposta diante o observador é denominada constância perceptiva. Ocorre não só no tamanho, mas também na forma, cor e brilho. Em cada caso, a constância perceptiva significa que o fenómeno observado pelo sujeito é deveras menos variável do que uma análise das características ópticas e físicas dos estímulos externos.

Ilusões Perceptuais

As ilusões perceptuais são ferramentas heurísticas que apoiam uma melhor compreensão sobre a percepção. As ilusões são chamadas de ilusões quando o que o senso comum ou o hábito percepcionam diverge daquilo que é realmente observado. Deste modo, propôs-se que determinadas ilusões são induzidas por falsas intimações da perspectiva: no entanto, esta não pode ser a única justificação, uma vez que inúmeras ilusões são destituídas de uma perspectiva interpretativa. Portanto, as ilusões podem ser provocadas pela forma como a informação é codificada pelos mecanismos fisiológicos, pela interpretação das disposições espaciais, ou por uma má interpretação das pistas fornecidas pela distância.

Psicologia Gestalt

O estudo das ilusões favorece certamente uma abordagem eclética e empírica à percepção. Porém, movimentos específicos na história da psicologia negaram tal posição. A psicologia gestalt, ao defender a primazia do fenómeno organizador, negou o papel da experiência na formatação da percepção. A palavra alemã gestalt significa “forma”, “feição”, “configuração” (Verkorperung). A pedra basilar desta escola é o entendimento da percepção como processo holista, isto é, impossível de compreender pela repartição em partes elementares. Para os psicólogos do movimento em questão, o campo visual seria determinado por princípios organizadores que eram simplesmente uma dimensão do funcionamento cerebral. Não obstante, as teorias propagadas sobre a actividade cerebral sabem-se falsas graças aos progressos na psicologia.

A Teoria Perceptual de Gibson

J.J. Gibson (1950; 1966), tal como os teóricos da gestalt, desencantou-se também da abordagem tradicional empírica, na qual os elementos da experiência sensorial  eram como que “colados” conjuntamente para representarem o mundo perceptual dado por intermédio da experiência convencional. Para darmos continuidade à metáfora, que “cola” é esta? Ninguém sabe ao certo, pelo que Gibson argumentou ser desnecessário saber que substância é essa, aliás, que é inexistente. Gibson concentrou a sua atenção no movimento, e concluiu que a informação contida nas exibições do movimento era de importância geral na maior parte das tarefas visuais. Argumentou igualmente que a informação de todo o campo visual revela informações válidas e salientes sobre o verdadeiro estado do mundo.

Na mesma linha argumentativa, Gibson insistiu na qualidade organizadora das nossas percepções. Distanciando-se do movimento gestalt, não se interessou pelo substrato fisiológico, insistindo que a percepção deve ser compreendida como a base da acção, e que o seu valor assenta principalmente na intersecção entre o organismo e o meio, ou seja, a interacção consumada no sistema biológico humano.

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References:

Boring, E. (1950) A History of Experimental Psychology, New York.

Dodwell, P.C. (1970) Visual Pattern Recognition, New York.

Gibson, E.J. (1988) ‘Exploratory behaviour in the development of perceiving, acting and acquiring of knowledge’, Annual Review of Psychology 39.

Gibson, J.J. (1950) The Perception of the Visual World, Boston, MA.——(1966) The Senses Considered as Perceptual Systems, Boston, MA.

Hebb, D.O. (1949) The Organization of Behavior, New York.

Hubel, D.H. and Wiesel, T.N. (1962) ‘Receptive fields, binocular interaction and functional architecture in the cat’s visual cortex’, Journal of Physiology 160.

Köhler, W. (1929) Gestalt Psychology, New York.

Maunsell, J.H.R. and Newsome, W.T. (1987) ‘Visual processing in monkey extrastriate cortex’, Annual Review of Neuroscience 10.

Perrett, D.I., Smith, P.A.J., Potter, D.D., Mistlin, A.J., Head, A.S., Milner, A.D. and Jeeves, M.A. (1985) ‘Visual cells in the temporal cortex sensitive to face view and gaze direction’, Proceedings of the Royal Society of London B 223.

Rock, I. (1984) Perception, New York.

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