Antropologia Cultural

A Antropologia Cultural é o estudo das práticas sociais, formas de expressão, e dos usos da linguagem por intermédio dos quais se constroem significados, frequentemente invocados e contestados nas sociedades humanas.

A Antropologia Cultural é o estudo das práticas sociais, formas de expressão, e dos usos da linguagem por intermédio dos quais se constroem significados, frequentemente invocados e contestados nas sociedades humanas. O termo Antropologia Cultural é geralmente associado com a tradição antropológica americana de investigação e escrita. Por inícios do século XX, Franz Boas criticou os pressupostos da antropologia evolucionista, dadas as implicações raciais: ao desenvolver a sua crítica, concentrou-se nas particularidades das diferentes formas de vida, ao invés de partir de comparações e generalizações amplas; e ao demonstrar que raça e cultura não se consubstanciam.

Por isto, como George Stocking sugeriu, a antropologia boasiana elaborou o conceito de cultura de acordo com moldes relativistas, pluralistas, holistas, integradores, e servindo como uma grelha historicamente condicionada para o estudo das determinações humanas. Em suma, um conceito que envolve a ênfase na linguagem como o campo onde se incorporam sistemas classificatórios culturalmente importantes.

A ênfase boasiana na cultura como esfera particular, padronizada e conjunto de categorias partilhadas, guiou o trabalho de muitos antropólogos segundo este prisma, posto que desde então, muito do trabalho elaborado concentrou-se nos significados para detrimento das funções das práticas sociais e culturais. Por este motivo, esta abordagem persiste como um paradigma duradouro que continua a orientar a antropologia americana, acabando por influenciar a antropologia estrutural francesa.

Edward Sapir, estudante de Franz Boas, posteriormente esboçou críticas contra algumas premissas do último, sobretudo em relação à tónica na criatividade individual na cultura e na linguagem, e aos escritos sobre a diversidade de perspectivas nas sociedades humanas. A partir da década de 70 do século XX, os antropólogos culturais têm vindo a desafiar a ideia boasiana da cultura como um todo partilhado, integrado e unificado; daí que tenham vindo a empregar novas estratégias interpretativas.

Em termos amplos, estes desafios resultaram de um repensamento da ideia de cultura através de quatro frentes interrelacionadas: primeiro, considerações sobre as políticas da representação de outras culturas e sociedades; segundo, análise das relações de poder onde se situam sempre os significados culturais; terceiro, avaliação da relação entre linguagem e cultura; quarto, investigações sobre a ligação entre o “Eu”, a emoção, e os significados culturais.

Políticas da Representação

Na obra Orientalismo, Edward Said lançou um influente argumento: as descrições ocidentais de outras culturas (habitualmente formalmente colonizadas) tipicamente representavam-nas como estáticas, fixadas numa tradição imutável e inatacável; e exerciam tal controlo sobre comportamentos e atitudes, que os indivíduos contextualizados nessas sociedades raramente criticavam ou transformavam conscientemente as suas sociedades. Said entendeu tais descrições como uma forma de escrita desumana que não só servia os interesses coloniais do Ocidente, mas que também permitia ao Ocidente definir-se enquanto entidade dinâmica ao invés de estática, e apresentar-se como científico e racional contrariando o tradicional.

Consequentemente, os antropólogos culturais consideraram as implicações desta (entre outras) crítica, e a forma como estas velhas concepções da cultura reforçavam tais representações. Como resultado, transformaram o teor da escrita e da análise para destacarem a natureza historicamente mutável de todas as sociedades, para assim reflectirem sobre a natureza política de toda a escrita antropológica, e tornarem-na explícita nos seus escritos.

Cultura e Poder

As definições de cultura boasiana e estruturalistas tipicamente envolvem pressupostos quanto à extensão em que uma cultura é partilhada em dada comunidade, e o grau em que as proposições culturais pertencem ao quotidiano e ao senso comum. Por essa razão, a antropologia cultural, influenciada pelo trabalho de Pierre Bourdieu, veio a enfatizar a usagem táctica do discurso cultural nas práticas sociais mundanas.

A Linguagem na Antropologia Cultural

Da obsoleta definição de cultura como estática, internamente coerente e homogénea, a antropologia passou para uma concepção que sublinha os significados heterogéneos, implementados para diferentes propósitos. Esta nova orientação derivou do novo modo como se olha para a linguagem: isto é, se a preocupação boasiana e estruturalista com a linguagem assentava teoricamente no entendimento desta como um sistema formal de categorias culturais abstractas, a investigação posterior passou a considerar as estratégias linguísticas que autorizam a construção e reconstrução dos estatutos, identidades e relações sociais. A fala, segundo o argumento dos antropólogos, é sempre produzida em contextos históricos e micropolíticos específicos, reflectindo as relações de poder existentes. E neste âmbito entra o termo discurso, que caracteriza a linguagem como um conjunto de recursos que permite aos actores construírem e negociarem os seus mundos sociais.

Eu e Emoção

Do estilo de escrita etnográfica que concebe culturas como monolíticas e homogéneas, alcançou-se uma escrita que vê a subjectividade humana como social e individual, a cultura como partilhada e contestada, trazendo ao lume o papel das emoções da vida social, e a possibilidade de uma antropologia da experiência que transmite não só as qualidades distintas da vida noutras culturas, como também retrata as experiências frequentemente complexas e contraditórias dos indivíduos.

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References:

Stocking, G. (1974) The Shaping of American Anthropology: 1883–1911, New York.

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