Mito do Bom Selvagem

Definição do “mito do bom selvagem”

O mito do bom selvagem consiste na idealização de que é no seio da natureza (“idade do ouro”) que o ser humano vive livre e em plena harmonia.

Este mito, muitas vezes percebido como tendo sido cunhado e desenvolvido pelo escritor e filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nomeadamente nas obras «Discurso sobre a Origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens» (1755) e «Emílio ou da Educação» (1762), encontra, na verdade, as suas bases de teorização logo após a descoberta da América em 1492, particularmente quando Cristóvão Colombo (1451-1506) contactou com as populações indígenas e ficou deslumbrado com a tamanha liberdade em que estas viviam.

Neste sentido, a descoberta do outro, do ser natural e selvagem, liberto da perversão que brota da civilização ocidental e, como, tal, ostentando um carácter bondoso por natureza, vai inspirar significativamente o pensamento literário europeu desde os finais do século XV até ao século XVIII, momento em que atinge a sua projeção máxima. No século XX, também se encontram obras que aproveitam este filão temático, como é o caso da distopia de Aldous Huxley (1894-1963), «Admirável Mundo Novo» (1932).

A importância do mito do bom selvagem destacou-se, sobretudo, com a resposta que este conseguira oferecer à incansável procura de novos valores no século XVIII. Tendo em linha de conta a colonização etnocêntrica por parte dos europeus e sob a ameaça da Revolução Industrial que se fazia sentir na altura, ou de uma sociedade que se organizava em prol do desenvolvimento tecnológico, os pensadores das Lumières sustentarem e desenvolveram, assim, a utopia do bom selvagem, significativamente influenciados pelos relatos dos navegadores, nomeadamente pelo Mundus Novus de Amerigo Vespucci (1454-1512), os quais retratam os indígenas como sendo livres, sensuais, polígamos, desprovidos de quaisquer bens materiais e, portanto, bons por natureza.

Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, ao tentar responder à questão colocada pela Academia de Dijon (Qual é a origem da desigualdade entre os homens?) defendeu a ideia de é a natureza que faz o homem bom e feliz e não a sociedade, que, por sua vez, o corrompe. Neste sentido, a civilização corresponde à queda social do homem e à sua entrada histórica na esfera do mal, argumentando, ainda que o mal vem dos homens e não da natureza.

O mito é retomado pelo filósofo suíço em «Emílio ou da Educação», uma utopia pedagógica que, com o intuito de formar um homem íntegro no seio de uma sociedade pervertida, abraça a ideia de que as crianças devem ser livres e formarem-se a partir das suas próprias experiências.

Uma outra razão inerente à presença do mito do bom selvagem em variadas obras literárias e filosóficas prende-se com a tendência com que o ser humano tem a sentir-se nostálgico, na medida em que sempre teve necessidade de encontrar o seu passado. Nesta lógica, o mito do bom selvagem concorre para oferecer a imagem reconfortante de um ser primitivo bondoso, inocente e feliz que vive em perfeita harmonia com a natureza.

Outras obras de destaque que abarcam o mito do bom selvagem são «Robinson Crusoé» (1717), de Daniel Defoe (1660-1731), «Cartas Persas» (1721), de Montesquieu (1689-1755), «A Ilha dos Escravos» (1725) de Marivaux (1688-1763), «Cândido ou o Otimismo» (1752), de Voltaire (1694-1778), «Suplemento à Viagem de Bougainville» (1772) de Denis Diderot (1713-1784), «Paul et Virginie» (1788) de Bernardin de St. Pierre (1737-1814) e «O Último dos Moicanos» (1826) de James Fenimore Cooper.

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