Álvaro de Campos

Olhar sobre a biografia de Álvaro de Campos e as principais características estilísticas e temáticas da sua poesia

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Quem foi Álvaro de Campos

Álvaro de Campos (1890-1935), o poeta da modernidade, foi um heterónimo criado por Fernando Pessoa que, segundo este último, surgiu quando sentia “um súbito impulso para escrever.” 1

Ainda segundo Pessoa2, Campos nasceu na cidade de Tavira, no Algarve, “teve uma educação vulgar de liceu e depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval.” Neste sentido, e tendo em conta a evolução industrial da época, Álvaro de Campos cantou e exaltou com verdadeira mestria e emoção a sociedade urbana do seu tempo, nomeadamente os ruídos ritmados e sincronizados das engrenagens, no poema profundamente inovador «Ode Triunfal», o qual se insere na sua fase futurista / sensacionista.

Álvaro de Campos é o mais multifacetado dos heterónimos, na medida em que é o único a espelhar diferentes fases[1] poéticas ao longo da sua obra.

A primeira é a fase decadentista, largamente influenciada pelo Simbolismo e dominada pelo tédio, pelo cansaço, pelo consumo de ópio e pela fuga à monotonia, já que o poeta sente que não se consegue adaptar ao mundo circundante. Durante este período, escreveu o poema «Opiário», o qual dedicou ao seu amigo Mário de Sá-Carneiro.

A segunda fase, já acima referida, sob as influências de Marinetti (1876-1944) e Walt Whitmam (1819-1892), traduz a exaltação da civilização cosmopolita e da Modernidade enquanto nova era do progresso humano. Incansável, e numa constante vertigem insaciável, Campos deseja “sentir tudo de todas as maneiras” e “ser toda a gente em toda a parte”, dado que é “o filho indisciplinado da sensação”3.

No entanto, apesar de toda esta agitação e euforia, o poeta também mergulha numa fase disfórica, pautada por desilusões e por angústias existenciais. Designada de “fase intimista”, esta terceira fase traça pontos de encontro com a poesia do ortónimo, nomeadamente quanto à nostalgia da infância irremediavelmente perdida, à dor de pensar, a toda uma angústia existencial e a um permanente sentimento de cansaço e / ou tédio.

[1] É importante salientar que, apesar das fases de Álvaro de Campos estarem descritas cronologicamente (primeira, segunda e terceira), conforme o consenso académico, estas devem, no entanto, ser compreendidas como diferentes estados de espírito que o poeta vivenciou ao longo do turbilhão da vida, passando de um para o outro quase sem transição.

Características da poesia de Álvaro de Campos ao nível da linguagem, do estilo e da estrutura:

  • linguagem simples, objetiva, prosaica, repleta de onomatopeias, neologismos, empréstimos, topónimos e antropónimos;
  • predomínio dos verbos no presente do indicativo, principalmente na fase futurista / sensacionista;
  • versos livres e longos com irregularidade estrófica, rítmica e métrica;
  • ausência de rima (versos soltos);
  • utilização de vários registos de língua (do literário ao obsceno);
  • vocabulário técnico no que diz respeito à sua fase futurista / sensacionista (sobretudo do campo lexical da Mecânica e da Indústria);
  • predomínio das aliterações, das anáforas, das apóstrofes, das enumerações, das gradações e das metáforas.

Temáticas presentes na poesia de Álvaro de Campos:

Quanto à fase decadentista:

  • cansaço, abulia, tédio de viver;
  • refúgio no ópio para, assim, experienciar novas sensações.

Quanto à fase futurista / sensacionista:

  • apologia da civilização contemporânea moderna, industrial e tecnológica;
  • exaltação eufórica da máquina, da força, da velocidade e do excesso;
  • exacerbação e simultaneidade das sensações e apologia da vertigem sensorial;
  • osmose, no momento presente, de todos os tempos e de todos os génios do passado.

Quanto à fase intimista:

  • angústia existencial, solidão, abulia, cansaço e morbidez;
  • introspeção e pessimismo – dor de pensar;
  • evasão para o mundo feliz da infância.

Versos ilustrativos de Álvaro de Campos:

  • “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!” (futurismo)
  • “Ah não ser eu toda a gente e toda a parte! (sensacionismo)
  • “Não me falem em moral! / Tirem-me daqui a metafísica!” (fase intimista – dor de pensar)
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References:

1 Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935. Disponível em http://arquivopessoa.net/textos/3007

2 idem

3 idem

 

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